Comportamento
A síndrome do “e eu?”: o narcisismo disfarçado que virou regra na internet
A nova era digital transformou cada post em gatilho. Em 2025, qualquer conteúdo que não se encaixa na sua realidade vira ofensa pessoal — e isso diz mais sobre a gente do que sobre os outros.
Em 2025, as redes sociais não funcionam mais como uma praça pública — são mais parecidas com um labirinto de espelhos. O algoritmo entendeu direitinho o que a gente gosta, odeia e teme, e começou a servir isso 24 horas por dia. Resultado? Cada post que escapa desse filtro vira motivo de crise. O novo fenômeno tem nome: síndrome do “e eu?”, um mix de egocentrismo disfarçado com carência de nuance.
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Essa síndrome é prima do narcisismo clássico, mas com um truque emocional: ao invés de gritar “olha pra mim!”, o comportamento é mais sutil — algo como “ninguém me vê, coitadinha de mim”. A psicóloga Jodie Clark descreve como o narcisismo encoberto, aquele que se esconde atrás de lamentos, dramas e pedidos constantes de validação. E, nas redes, isso virou rotina.
Acostumado com conteúdos moldados sob medida, o usuário médio de hoje estranha profundamente quando um vídeo, post ou opinião não parece “sobre ele”. Em vez de absorver ou passar batido, a pessoa se incomoda, se ofende, e pergunta: “por que não me consideraram?”. A questão não é aprender algo novo, mas voltar para o centro da conversa. O foco virou a autoproteção, não a troca.

E aí entra o segundo combustível dessa crise: a personalização extrema dos assistentes virtuais. Ferramentas como o ChatGPT criam respostas no tom que você quiser, com o viés que te conforta — mesmo que isso signifique distorcer dados. Uma pesquisa da Carnegie Mellon mostrou que, quanto mais usamos IA sem checar, menos treinamos o pensamento crítico. Ou seja: o algoritmo ficou afiado, mas o nosso cérebro, nem tanto.
A consequência mais tensa aparece quando isso encontra pautas reais. Pessoas usam causas legítimas — como transtornos, dores reais ou identidades — pra justificar que tudo, absolutamente tudo, deve se encaixar nelas. Não é militância, é manipulação. A ideia não é dialogar, é se blindar da crítica com um escudo de indignação personalizada.
Mas calma: tem luz no fim do feed. Muita gente já começou a rir da síndrome, creators estão impondo limites e o público começa a perceber o exagero. Esse comportamento escancarado pode ser o empurrão que faltava pra gente se enxergar e mudar. E o primeiro passo é simples: entender que nem todo conteúdo é pra você — e tá tudo bem.
A internet não é (ou não deveria ser) uma redação feita pra sua vida. Às vezes, basta aceitar, deslizar pra cima e seguir. Não é sobre ignorar as pautas importantes — é sobre saber quando o silêncio vale mais que o comentário. E sobre lembrar que viver em sociedade significa, sim, nem sempre ser o foco da conversa. Difícil? Talvez. Necessário? Totalmente.
Comportamento
Novelas das frutas no TikTok: a trend de IA que virou vício em 2026
Com episódios curtos, dramas de traição e estética de desenho animado, os folhetins frutíferos feitos com IA conquistaram o algoritmo
Se você abriu o TikTok nos últimos dias e se pegou assistindo um abacate traído discutir com uma morango em formato vertical, bem-vindo ao clube. As “novelas das frutas” dominaram o TikTok e o Instagram no início de 2026: personagens como Abacatudo e Moranguete vivendo dramas de traição, divórcio e colapso emocional em vídeos curtos feitos com IA que acumulam milhões de visualizações diárias. A estética é de animação infantil. O conteúdo, nem sempre.
A tendência chegou ao Brasil vinda de fora, com a série Fruit Love Island, inspirada no reality britânico Love Island. Por aqui, ganhou sotaque próprio: gírias brasileiras e histórias ainda mais exageradas. A adesão corporativa veio rápido – SBT, Burger King e iFood já usaram os folhetins frutíferos em peças publicitárias. Quando o Burger King está fazendo conteúdo com fruta dramática, a trend chegou longe.
O formato foi praticamente desenhado para prender. Os episódios são curtos, exageram nas emoções e terminam sempre no momento mais tenso – o que empurra o espectador para o próximo clipe de forma quase automática. Especialistas apontam a “dissonância cognitiva” como chave do sucesso: o contraste entre ver uma fruta falar e a seriedade absoluta dos temas que ela discute cria um choque que conecta com a Geração Z e os millennials. Some a isso a estrutura episódica, a produção acessível via IA e um algoritmo que premia retenção, e o ciclo se fecha.
“Fácil de consumir” não é necessariamente o mesmo que inofensivo. O novo Estatuto da Criança e do Adolescente digital, que entrou em vigor em março de 2026, obriga plataformas a criarem sistemas reais de verificação de idade e a restringirem conteúdos sensíveis. A estética de cartoon com traição, violência e abandono de bebês em maternidades chega sem filtro para públicos de todas as idades – e esse é o problema que a tendência ainda não resolveu.
Comportamento
TikTok na velocidade 2x está destruindo sua atenção?
Especialistas explicam como o hábito de acelerar vídeos combina com o doomscrolling para criar um ciclo de hiperestimulação que pode mudar o funcionamento do seu cérebro
Tem uma pergunta que a gente precisa fazer com seriedade: quando foi a última vez que você assistiu um vídeo no TikTok na velocidade normal e não sentiu aquela coceirinha de acelerar? Se você já não consegue mais tolerar o ritmo original de um conteúdo de 30 segundos, talvez esse seja exatamente o problema. Especialistas em psicologia e neurociência estão levantando um alerta crescente sobre o hábito de assistir vídeos em velocidade 2x – e o diagnóstico não é nada animador. Combinado ao doomscrolling, essa prática pode ser um indicativo real de que o seu cérebro já entrou num ciclo de dependência que vai muito além de uma preferência pessoal.
A explicação começa no mecanismo mais básico de funcionamento do TikTok: o algoritmo da plataforma foi desenhado, desde o início, para ser viciante. Segundo o especialista em internet na China Matthew Brennan, citado por pesquisadores brasileiros em estudo publicado pela Revista Contemporânea em 2024, o aplicativo foi literalmente construído com alto teor aditivo. Cada vídeo que você assiste até o fim, cada like, cada repetição – tudo alimenta um sistema de recomendação que aprende suas preferências numa velocidade muito superior à de qualquer outra rede social.

O resultado é uma enxurrada de conteúdo hiperpersonalizado que entrega dopamina em doses rápidas e constantes, treinando o cérebro a querer sempre mais, e sempre mais rápido. Esse mecanismo ativa a dopamina não porque o usuário quer de fato o conteúdo em si, mas porque o cérebro passou a buscar a descarga química que vem junto com ele.
E é aí que a velocidade 2x entra como sintoma, não como solução. Quando você acelera um vídeo, está essencialmente dizendo pro seu próprio cérebro que o ritmo natural das coisas já não é suficiente para te prender. A coach de psicologia Casey Paul, consultada em reportagem do Popsugar sobre o tema, aponta que assistir conteúdo acelerado demonstra uma impaciência crescente com a entrega de informação e indica que vídeos em ritmo mais lento simplesmente não conseguem mais capturar sua atenção. Isso não é produtividade – é hiperestimulação.
Especialistas alertam que o uso excessivo de conteúdo em alta velocidade molda a química cerebral e gera um vício em dopamina, levando à fadiga mental que impede a conclusão de tarefas simples do cotidiano. Ler um livro inteiro, terminar uma série sem checar o celular, estudar por mais de vinte minutos – tudo isso vira uma missão impossível quando o cérebro já foi condicionado a trocar estímulos a cada deslizar de dedos.

Um estudo publicado na revista científica NeuroImage identificou que usuários intensivos de plataformas de vídeo curto apresentam menor atividade no pré-cúneo, região cerebral ligada à avaliação de riscos e à tomada de decisões reflexivas. Em paralelo, pesquisas de ressonância magnética sugerem que o uso prolongado de redes sociais pode causar anomalias no córtex pré-frontal – área responsável justamente pelo controle emocional e pela regulação do comportamento impulsivo.
O termo brain rot, traduzido como “apodrecimento do cérebro”, não surgiu por acaso: foi escolhido como palavra do ano pela Oxford University Press em 2024 exatamente porque a experiência coletiva de uma geração inteira estava sendo descrita por essa expressão. A gíria virou dado científico.
Mas nem tudo é catastrófico, e os especialistas são enfáticos nisso: o problema não está no TikTok em si, mas no uso excessivo e descontrolado. Casey Paul defende que sair desse ciclo exige tanto mudanças práticas quanto uma revisão de mentalidade – estabelecer limites de uso, criar janelas offline e, principalmente, reaprender a tolerar o silêncio e o tédio sem correr para a tela.
A neurologista Letícia Sampaio, coordenadora do departamento de Neurologia Infantil da Associação Brasileira de Neurologia, reforça que quando o cérebro aprende a obter prazer de forma rápida, ele tende a repetir esse comportamento em detrimento de atividades que exijam mais atenção e onde a recompensa demora mais para chegar. Reconhecer esse padrão já é o primeiro passo para quebrá-lo – e talvez começar assistindo um vídeo no 1x seja, literalmente, um exercício terapêutico.
Comportamento
Mattel lança sua primeira Barbie autista com design aprovado por ativistas
A nova boneca da linha Fashionistas foi desenvolvida em parceria com a comunidade autista e traz detalhes pensados para representar experiências reais de pessoas neurodivergentes
A Mattel acaba de apresentar ao mundo sua primeira Barbie autista, e dessa vez o processo foi bem diferente do que a gente costuma ver em iniciativas de representatividade corporativa. A boneca foi desenvolvida ao longo de mais de 18 meses em parceria com a Autistic Self Advocacy Network, uma organização sem fins lucrativos liderada por pessoas autistas que atua pelos direitos e pela melhor representação midiática da comunidade.
O objetivo era criar uma Barbie que refletisse algumas das formas como pessoas autistas experienciam e processam o mundo ao redor, e o resultado traz detalhes que vão muito além do simbólico. A boneca chega às prateleiras nesta segunda-feira (13), pelo preço sugerido de US$ 11,87.

O grande diferencial desse lançamento está nos detalhes que só quem entende de neurodiversidade conseguiria propor. Os olhos da nova Barbie são levemente desviados para o lado, representando como algumas pessoas autistas às vezes evitam contato visual direto. A boneca também recebeu cotovelos e pulsos articulados para reconhecer gestos que pessoas autistas usam para processar informações sensoriais ou expressar emoções. Cada boneca vem acompanhada de um spinner rosa de encaixar no dedo que realmente gira, fones de ouvido com cancelamento de ruído e um tablet rosa que representa os dispositivos de comunicação alternativa usados por autistas não-verbais ou com dificuldades na fala. São elementos que quem vive a realidade do autismo reconhece instantaneamente.
Até as roupas da boneca passaram por um processo de decisão cuidadoso junto à comunidade. A equipe de desenvolvimento debateu se deveria vestir a boneca com roupas justas ou largas, já que algumas pessoas autistas usam roupas soltas por serem sensíveis ao toque das costuras, enquanto outras preferem peças ajustadas que dão uma sensação de onde seus corpos estão no espaço. No final, optaram por um vestido de linha A com mangas curtas e saia esvoaçante que oferece menos contato do tecido com a pele, além de sapatos baixos para promover estabilidade e facilidade de movimento.
Noor Pervez, gerente de engajamento comunitário da Autistic Self Advocacy Network que trabalhou diretamente no protótipo, explicou que representar o autismo visualmente é um desafio porque, como muitas deficiências, ele não tem uma única aparência, mas é possível mostrar algumas das formas como ele se expressa.

A nova Barbie autista também marca um passo importante em termos de representatividade étnica dentro da própria comunidade neurodivergente. A adição da boneca à linha Barbie Fashionistas se tornou uma oportunidade para a Mattel criar uma boneca com características faciais inspiradas em funcionárias da empresa na Índia, representando um segmento da comunidade autista que costuma ser sub-representado. A boneca se junta a uma coleção que já inclui Barbies com síndrome de Down lançada em 2023, uma Barbie representando pessoas com diabetes tipo 1 apresentada em 2025, além de Barbies cegas, com vitiligo, com próteses de perna e com aparelhos auditivos. Jamie Cygielman, diretora global de bonecas da Mattel, afirmou que a marca sempre se esforçou para refletir o mundo que as crianças veem e as possibilidades que imaginam, e que essa nova boneca ajuda a expandir o que inclusão significa nas prateleiras de brinquedos e além delas, porque toda criança merece se ver na Barbie.
