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Afinal, Melody será a nova Anitta?

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Toda vez que o carnaval termina, o Brasil escolhe alguém para coroar. Em 2026, o nome da vez foi Melody – Gabriela de Abreu Severino para o registro civil, mas simplesmente Melody para o algoritmo, para os trios elétricos e para a imprensa internacional que começou a prestar atenção. Com Jetski, parceria com Pedro Sampaio e MC Meno K, no topo do Spotify Brasil e na posição 97 do Billboard Global 200 durante cinco semanas consecutivas, e com Desliza, feat com Léo Santana, garantindo a décima posição no mesmo ranking nacional na segunda-feira de folia, a cantora de 19 anos virou sinônimo de momento. E com isso veio, inevitável e imediatamente, a pergunta que o pop brasileiro parece incapaz de resistir: ela é a nova Anitta?


A comparação tem lógica superficial e sedução óbvia. As duas nasceram no mesmo universo: meninas de origem simples que entenderam, antes de qualquer executivo de gravadora, que na era digital a atenção é a moeda mais valiosa. As duas chegaram ao mainstream pelo funk e pela polêmica. As duas sabem dançar, sabem performar, sabem criar narrativa pública ao redor de si mesmas. E, curiosamente, as duas já protagonizaram um dos roteiros relacionais mais folhetinescos do pop nacional – uma relação de admiração, rivalidade, alfinetadas públicas e bastidores nebulosos que se estende por anos.

Em 2021, Anitta chegou a dizer publicamente que adoraria empresariar a carreira de Melody quando ela completasse 18 anos. Em 2024, com a jovem na véspera dos 18, a Poderosa foi a uma coletiva de imprensa e anunciou que havia desistido da ideia por “incompatibilidade de energia”. Melody reagiu com uma frieza que surpreendeu: disse que a proposta precisaria ser boa para ambos os lados e que não fecharia acordo nenhum independentemente do nome envolvido – fosse Anitta, Justin Bieber ou Ariana Grande.

Mas o que separa as duas vai muito além do que une

A trajetória de Anitta rumo à construção de uma carreira internacional real é um dos projetos mais metódicos e deliberados do pop contemporâneo. Ela aprendeu inglês com pronúncia aprimorada para ser respeitada em reuniões nos Estados Unidos, passou anos voando entre São Paulo e Los Angeles fazendo network enquanto mantinha uma agenda de shows domésticos brutal, assinou com gravadoras internacionais, colaborou com J Balvin, Cardi B, Maluma, Missy Elliott, Khalid e, mais recentemente, The Weeknd.

Envolver se tornou a primeira música solo de um artista latino a liderar o Spotify Global, em março de 2022 – feito que não foi acidental, mas resultado de uma estratégia de anos. Anitta se apresentou no palco principal do Coachella, recebeu indicações ao Grammy americano e ao Grammy Latino, ganhou um VMA como primeira brasileira a fazê-lo, e acumulou dez indicações ao Grammy Latino ao longo da carreira. Recebeu da Billboard o Vanguard Award da edição de 2025 do Latin Women in Music, honraria que reconhece artistas que constroem caminhos onde não existiam antes. Tudo isso foi construído ao longo de mais de uma década de trabalho.


Melody está no início. Jetski no Billboard Global 200 é um resultado expressivo, mas ainda é o resultado de uma música de carnaval que pegou num ciclo sazonal extremamente favorável. Não existe ainda um álbum de referência, uma identidade sonora consolidada, uma trajetória de construção internacional consciente. O que existe é um talento inegável de criar engajamento, uma presença de palco que a internet começou a reconhecer como genuína – e o fato de ser, hoje, a única mulher entre os dez artistas mais ouvidos do Spotify Brasil.

No X (antigo Twitter), uma parte do público passou a chamá-la de A Substância da Anitta, em referência ao filme de Coralie Fargeat – a ideia de que uma nova versão mais jovem surgiu para ocupar o espaço que a predecessora começa a liberar. A metáfora é divertida mas simplista: Anitta não está apagando, está num momento de maior seletividade e de reposicionamento espiritual-existencial que ela mesma documentou no Netflix. E Melody ainda está descobrindo quem ela quer ser quando a câmera não está filmando.

A pergunta mais interessante, portanto, não é se Melody é a nova Anitta – porque essa comparação diz pouco sobre o que ela pode se tornar. A pergunta real é o que ela vai fazer com esse carnaval nas costas. Anitta levou anos construindo o que tem. Melody tem 19, uma entrada no Billboard Global e dois hits que estão em todo lugar agora. O que ela tem de fazer é exatamente o que a própria Anitta dizia que era o essencial: parar de depender da sazonalidade e construir algo que sobreviva aos blocos de carnaval. Quando a música do verão for embora, o que vai ficar?

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