Séries
‘America’s Next Top Model’: as polêmicas reveladas pelo documentário da Netflix
Reality Check: Inside America’s Next Top Model chega à Netflix revisitando 20 anos de polêmicas
Tem programas que envelhecem. E tem programas que a gente vai descobrindo que nunca foram aceitáveis para começo de conversa – só que todo mundo estava ocupado demais assistindo para notar. America’s Next Top Model se encaixa nessa segunda categoria, e o documentário Reality Check: Inside America’s Next Top Model, disponível na Netflix desde 16 de fevereiro, chegou para confirmar o que a internet já suspeitava: o reality de Tyra Banks foi um dos programas mais problemáticos da história da televisão americana. Em três episódios, a série documental reúne ex-participantes, membros da produção e a própria Tyra para olhar para trás e tentar explicar o que aconteceu ao longo de 24 ciclos e 15 anos no ar. O problema é que o documentário, mesmo quando acerta ao dar voz às vítimas, falha feio em arrancar responsabilidade real de quem tinha o poder nas mãos.
O ANTM nasceu em 2003 com uma proposta que, no papel, tinha tudo para ser revolucionária. Tyra Banks, que havia quebrado barreiras como modelo negra numa indústria estruturalmente racista, queria criar um espaço onde belezas fora do padrão pudessem disputar em condições de igualdade. O problema é que entre a intenção e a realização existe um abismo – e ao longo dos ciclos esse abismo foi se alargando.
O documentário revisita casos que vão de negligência grave a situações que hoje seriam diretamente classificadas como abuso. No segundo ciclo, a participante Shandi Sullivan relata ter ficado inconsciente durante uma festa em Milão, enquanto a equipe de produção filmava tudo e ninguém intervinha. Quando acordou, foi submetida a uma conversa pública sobre traição com o namorado – que foi filmada como condição para que ela pudesse fazer a ligação. Anos depois, Tyra levou Shandi ao seu talk show, e quando a modelo disse que não queria rever as cenas, a apresentadora simplesmente as exibiu mesmo assim. No documentário, a defesa de Tyra para esse episódio foi que ela tinha cortado as partes piores para proteger a participante. A lógica, claramente, não chegou a todos.
Outros casos reforçam um padrão que vai além de episódios isolados. A participante Daniele Evans foi pressionada a fechar o diastema – aquele espaço icônico entre os dentes da frente – ou seria eliminada da competição. Ela não queria fazer o procedimento, deixou isso claro, e ainda assim cedeu por entender que aquela era uma oportunidade única. Ganhou o ciclo e passou anos sem conseguir trabalho, ouvindo que ninguém queria contratar uma “estrela de reality”.
Participantes negras chegavam a um programa que prometia diversidade e encontravam um salão de beleza onde nenhum profissional sabia lidar com a textura dos seus cabelos. Ria ao invés de atender. Nos ensaios temáticos, o programa escolhia a narrativa de cada uma – a difícil, a insegura, a que está acima do peso – e usava as provas para reforçar esse rótulo até a eliminação. Quem era a gula nos Sete Pecados Capitais era o elefante na África do Sul. O meme da Tiffany, aquele em que Tyra explode com a participante (“Eu estava torcendo por você!”), que virou hit da internet, esconde nos bastidores uma história bem mais pesada do que o clipe viral entrega.
O que torna o documentário simultaneamente necessário e frustrante é exatamente a postura da Tyra ao longo das entrevistas. Ela participa, o que já é alguma coisa – os diretores ressaltam que ela entrou no projeto sem controle criativo e sem pré-visualizar as cenas. Mas diante das perguntas mais diretas, o padrão se repete: ela desvia, diz que não pode falar por decisões executivas que ela mesma tomou, e quando admite erros, quase sempre encontra uma forma de dividir a culpa com o público. “Vocês pediam mais drama, então a gente entregava”, é a linha que resume sua filosofia de defesa.
Jay Manuel, diretor criativo do programa por anos e cujo afastamento rendeu um dos momentos mais reveladores do documentário, foi mais direto ao avaliar o episódio de Shandi: disse que Tyra parecia ter dificuldade de lembrar do ocorrido – mas que achou difícil acreditar nisso, dado quantas vezes a própria apresentadora trouxe Shandi ao seu talk show para reviver o momento. O Miss J, por sua vez, aparece no documentário lutando para recuperar a mobilidade após um AVC sofrido em 2022, e comenta em uma das falas mais pesadas da série que passou anos ensinando modelos a andar – e que agora não consegue mais andar. Segundo ele, Tyra ainda não foi visitá-lo pessoalmente.
No fim do documentário, a apresentadora deixa no ar a possibilidade de um 25º ciclo. E é aí que fica a grande pergunta que o documentário não consegue responder: se esse projeto serviu para fechar um capítulo ou para abrir caminho para repetir o mesmo erro com outra embalagem.