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Clipes musicais ainda importam em 2026?

De Beyoncé a Pabllo Vittar, artistas estão abandonando videoclipes tradicionais – e os números explicam por quê

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Houve um tempo em que lançamento de clipe era evento. A gente marcava horário, reunia os amigos, assistia junto e depois ficava analisando cada frame como se fosse cena de filme. Mas em 2026, essa realidade parece cada vez mais distante. A maior estrela pop do planeta, Beyoncé, passou dois álbuns inteiros sem soltar um único videoclipe tradicional. Pabllo Vittar, uma das artistas mais visuais do pop brasileiro, apostou quase exclusivamente em visualizers no seu último projeto. E os dados mostram que essa não é uma escolha aleatória – é uma resposta direta à forma como consumimos música hoje.

Uma análise da Chartmetric sobre as faixas mais streamadas do Spotify em 2023 revelou um dado que explica muito essa mudança de comportamento da indústria: das 40 músicas mais ouvidas lançadas entre 2022 e 2023, 36 tinham clipes oficiais. Esses vídeos acumularam em média 374 milhões de views no YouTube – o que parece impressionante, até você comparar com a média de 1,1 bilhão de streams por faixa no Spotify. Estamos falando de um gap de aproximadamente 731 milhões de reproduções. Traduzindo de forma bem direta: as pessoas estão ouvindo música em plataformas de áudio e não necessariamente assistindo aos clipes. Isso muda completamente a lógica de investimento das gravadoras, que historicamente despejavam milhões em produções cinematográficas esperando retorno em visualizações.


Beyoncé entendeu isso antes de todo mundo. Os dois últimos álbuns da cantora, Renaissance (2022) e Cowboy Carter (2024), não ganharam videoclipes tradicionais. Fãs imploraram por visuais durante anos, criaram teorias, montaram cronogramas de possíveis lançamentos – e nada. Em entrevista à GQ, Bey explicou a decisão de forma direta: “Eu achei importante que, em um momento em que tudo o que vemos são imagens, o mundo pudesse focar na voz. A música é tão rica em história e instrumentação. Leva meses para digerir, pesquisar e entender. A música precisava de espaço para respirar por si só.” Ela complementou dizendo que às vezes um visual pode ser uma distração da qualidade da voz e da música, e que anos de trabalho árduo colocados em um álbum que leva mais de quatro anos para ser feito merecem esse espaço. A cantora só quebrou o jejum visual com o clipe de Bodyguard em novembro de 2024, lançado estrategicamente no dia da eleição americana. Enquanto isso, fez turnê mundial, lançou filme-concerto nos cinemas e dominou as paradas. A mensagem foi clara: o clipe não é mais obrigatório.


No Brasil, Pabllo Vittar seguiu caminho parecido com o Batidão Tropical Vol. 2. Das 14 faixas do álbum, a grande maioria foi lançada apenas com visualizers – aqueles vídeos com imagens estáticas ou animações simples que acompanham a música. Faixas como São Amores, Rubi, Nas Ondas do Rádio e Pra Te Esquecer ganharam apenas esse tratamento visual básico. Apenas o single Pede pra Eu Ficar (Listen to Your Heart) ganhou um clipe tradicional, dirigido por Leocádio Rezende e Vitin Allencar. Para uma artista que já entregou produções icônicas como K.O., Amor de Que e Sua Cara, a escolha é significativa. Pabllo construiu boa parte da sua carreira em cima de visuais impactantes, e ver ela optar por visualizers mostra que até quem domina a linguagem do clipe está repensando onde colocar energia e recursos.


O The Guardian apontou em 2024 que clipes de artistas pop ocidentais estavam atraindo significativamente menos views do que lançamentos anteriores dos mesmos artistas, enquanto vídeos de música latina e K-pop continuavam dominando as maiores contagens da plataforma. Não é à toa que grupos como Blackpink ainda quebram recordes de estreia no YouTube – existe uma cultura de consumo visual muito mais forte nessas comunidades de fãs. Para o pop mainstream ocidental, porém, a função do clipe mudou.

Artistas como Charli XCX usam videoclipes para enquadrar o lançamento e definir a identidade visual de uma era, mas o consumo sustentado acontece nas plataformas de áudio. O clipe virou asset de lançamento, não produto de consumo contínuo. É o que vemos também no recente clipe de Stateside de PinkPantheress e Zara Larsson, dirigido por Charlotte Rutherford – um visual caprichado que serve para marcar território estético e gerar conversa nas redes, mas não precisa carregar o peso de ser a principal forma de consumo da música.


A questão não é mais se artistas devem fazer clipes, mas quando, por que e como. Quando os vídeos são claramente posicionados dentro de uma estratégia de lançamento – como ferramenta de identidade visual, conteúdo para redes sociais ou declaração artística – eles ainda desempenham um papel significativo. Mas a era em que o videoclipe era obrigatório para o sucesso de uma música ficou para trás.

O videoclipe não morreu; ele só aprendeu a ocupar um espaço diferente na conversa. E se Beyoncé, a artista que praticamente inventou o álbum visual moderno com Lemonade, decidiu que pode passar dois projetos inteiros sem soltar um clipe sequer, talvez seja hora de a gente também repensar nossas expectativas.

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