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Como o BTS transformou o serviço militar obrigatório em luto coletivo – e voltou maior do que antes

A Big Hit Music posicionou o hiato como capítulo, não como pausa. O resultado: 110 milhões de streams no primeiro dia e 250 mil pessoas em show e Seul

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Existe uma palavra em coreano, han, que não tem tradução direta em português. Ela descreve uma mistura de saudade, ressentimento e esperança acumulados – um luto que não paralisa, mas que ferve em silêncio até ter onde ir. O retorno do BTS, formalizado no dia 20 de março com o lançamento do álbum ARIRANG, é talvez a melhor explicação prática do que han significa.

Primeiro álbum do grupo em quase seis anos, ARIRANG chega após todos os sete membros terem completado o serviço militar obrigatório sul-coreano, período que se estendeu de dezembro de 2022 a junho de 2025. O que aconteceu nesse intervalo não foi simplesmente uma pausa. Foi um luto coletivo ritualizado.

Quase dois mil dias de espera como identidade

Quando o BTS anunciou a hiato em 2022, o fandom não desapareceu. Ele se reorganizou. Countdowns obsessivos, projetos de caridade em nome dos membros durante o serviço, conteúdo memorial compartilhado diariamente, comunidades inteiras dedicadas a documentar cada foto vazada de alguma base militar.

A ARMY não apenas esperou – ela construiu uma infraestrutura emocional em cima da ausência. Para a Gen Z, que processa vínculos de forma intensa, ritualizada e mediada por plataformas, a espera pelo BTS funcionou como laboratório: como você mantém pertencimento quando o objeto do pertencimento some?


A resposta foi: criando narrativa. O serviço militar não foi tratado como interrupção, mas como capítulo. E ARIRANG, título que referencia a canção folclórica coreana mais famosa, símbolo de separação e resiliência, foi escrito conscientemente como resolução desse arco. A própria Big Hit Music declarou que o álbum “captura a identidade do BTS como um grupo que começou na Coreia”, e a crítica especializada apontou que o disco funciona menos como coleção de singles e mais como uma história cuidadosamente sequenciada.

O show que parou Seul

O concerto gratuito de 21 de março na Praça Gwanghwamun, em Seul, foi o maior da história da Coreia do Sul. Mais de 250 mil pessoas se reuniram nas ruas ao redor do palco, enquanto apenas 22 mil tinham ingressos para a área designada – o restante acompanhou em telões espalhados pelo centro da cidade.


O evento foi transmitido ao vivo pela Netflix para 190 países, a primeira vez que a plataforma transmitiu um show ao vivo em vez de apenas gravá-lo como filme de concerto. No Brasil, onde o fandom acorda às 4h da manhã para acompanhar eventos em tempo real, a transmissão democratizou o acesso a um momento que antes seria exclusivo de quem pudesse viajar a Seul.

Os números do álbum confirmam a dimensão do retorno. ARIRANG registrou 110 milhões de streams no Spotify no primeiro dia – o maior número de 2026 até agora – e suas 14 faixas ocuparam simultaneamente as 14 primeiras posições do Top 50 Global da plataforma. Para contextualizar: nem Taylor Swift na semana de lançamento de The Tortured Poets Department havia conseguido esse feito de forma tão massiva.

Fandom como infraestrutura econômica

O impacto projetado do comeback ultrapassa o simbólico. Estudos estimam que a Arirang World Tour – 82 datas em 23 países, com três apresentações confirmadas em São Paulo em outubro de 2026 – pode gerar um impacto econômico próximo a US$ 1,93 bilhão, rivalizando com a The Eras Tour de Taylor Swift. O Brasil, um dos cinco maiores mercados do BTS no mundo, vai sentir isso diretamente: a disputa pelos ingressos de São Paulo promete ser uma das maiores cenas de fandom do ano no país.

O que o retorno do BTS revela não é só sobre K-pop. É sobre como uma geração aprendeu a transformar ausência em ritual, espera em identidade e fandom em comunidade real. Quando RM subiu ao palco em Seul e disse “안녕 Seoul, we’re back” – olá Seul, voltamos -, o som que ecoou era de pessoas que haviam prendido a respiração por anos e finalmente podiam soltar. Para a ARMY, esse foi o momento.

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