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Fandoms na rua: os fãs vão conseguir virar uma eleição?
ARMY, Swifties e fãs de Anitta levaram para a campanha de Lula a mesma organização que usam para bater recordes, e o agradecimento na Paulista mostra que a política finalmente percebeu quem são os jovens que ela deixou de ouvir
No domingo (11), em ato de campanha na Avenida Paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu o discurso com uma dúvida que diz muito sobre esta eleição: se começava falando “companheiros e companheiras” ou “fandoms do Brasil”. O agradecimento foi para o movimento “Fandoms na Rua com Lula: Marcha pela Democracia”, que reúne páginas de fãs de BTS, Taylor Swift, Beyoncé, Anitta, The Weeknd e Harry Styles. Durante anos, fã-clube foi tratado como sinônimo de histeria adolescente. Agora, essas mesmas comunidades estão no centro da reta final de uma disputa presidencial apertada, e a pergunta que fica é por que demorou tanto para alguém levá-las a sério.
A mobilização nasceu no dia seguinte ao primeiro turno, que terminou com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula por pouco mais de 2,28 milhões de votos. Perfis de fãs publicaram um manifesto conjunto lembrando que mais de 33 milhões de brasileiros não foram votar e que outros 6 milhões anularam ou votaram em branco. O texto deixava claro que a motivação era a defesa da democracia e de um projeto de país, e não fanatismo político, e listava três metas bem concretas: informar quem está indeciso, levar às urnas quem faltou no dia 4 e manter mobilizado quem já escolheu. As páginas se colocaram à disposição da campanha, que respondeu. O Planalto já tinha recebido representantes dos fandoms de Taylor Swift, BTS e Harry Styles, num gesto raro de reconhecimento institucional a uma juventude que costuma ser lembrada só na hora de culpar o celular por tudo.
Quem acompanha cultura pop sabe o tamanho dessa força. Fandoms funcionam como pequenas redações, com equipes de tradução, design, moderação e produção de memes, e passaram a última década treinando coordenação em massa com streaming parties, votações em premiações e campanhas de hashtag. Em 2020, o ARMY igualou em cerca de um dia a doação de US$ 1 milhão do BTS ao movimento Black Lives Matter, caso estudado por pesquisadores da Universidade Nacional de Seul justamente pela capacidade de transformar afeto entre fãs em ação política. No mesmo ano, fãs de K-pop e usuários do TikTok reservaram ingressos em massa para um comício de Donald Trump em Tulsa e ajudaram a esvaziar o evento. Para uma geração que cresceu sem sindicato, grêmio ou associação de bairro por perto, o fandom virou o primeiro lugar onde se aprende a agir coletivamente.
Não surpreende que a reação tenha vindo rápido. O deputado federal Lucas Pavanato questionou a articulação e comparou o movimento a táticas de desinformação, uma acusação difícil de sustentar diante de uma campanha feita às claras, com manifesto público, assinatura de cada página e objetivos declarados. No Poder360, o cientista político Sávio di Maio apresentou uma crítica mais elaborada: para ele, mobilizar quem já concorda é diferente de convencer quem não gosta de Lula, e o conteúdo dos fãs ainda pode virar munição nas redes adversárias. O argumento tem seu ponto, e os Estados Unidos ajudam a ilustrá-lo, já que o apoio de Taylor Swift a Kamala Harris em 2024 não impediu a vitória de Trump. Mas ele parte de uma premissa que os próprios fandoms nunca assumiram, a de que a missão deles seria converter bolsonaristas.
A aposta dos fãs mira um lugar onde eles são imbatíveis: fazer gente aparecer. Converter eleitor convicto nunca foi a especialidade dessas comunidades, enquanto tirar alguém do sofá num domingo é o que elas fazem o ano inteiro, convencendo seguidores a votar em premiação, fazer pré-save e entrar na fila virtual no minuto em que a venda abre. Com uma abstenção de cerca de 21% no primeiro turno, uma fatia pequena desses 33 milhões já pesa numa eleição decidida voto a voto, e boa parte desse contingente é justamente jovem, conectado e afastado da política tradicional. Medir esse efeito é quase impossível, porque nenhuma urna registra se o eleitor saiu de casa por causa de um post do fã-clube.
Seja qual for o resultado, os fandoms já deixaram uma marca nesta campanha: provaram que a juventude que passa o dia online também se organiza, cobra e ocupa a rua quando sente que algo importante está em jogo. O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro acontece em 25 de outubro.