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‘Jogos Vorazes’: como Peeta Melark desafiou os padrões do herói masculino na ficção

Com ‘Amanhecer na Colheita’ renovando o interesse na saga, vale revisitar por que o garoto do pão continua sendo um dos personagens masculinos mais subversivos da ficção jovem

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Com Amanhecer na Colheita ainda ecoando no BookTok – o novo livro de Suzanne Collins vendeu mais de 4,4 milhões de cópias em inglês desde o lançamento em março de 2025 e tem adaptação cinematográfica prevista para novembro de 2026 – o universo de Panem voltou ao centro das conversas. E, com ele, um personagem que costuma dividir opiniões mas raramente recebe o crédito que merece: Peeta Mellark.

Filho de padeiro, apaixonado por palavras, bom com tinta e melhor ainda com gente. Num gênero literário que por décadas celebrou protagonistas masculinos que resolvem tudo no grito ou na bala, Peeta é, no mínimo, uma anomalia. No máximo, uma pequena revolução.


A questão começa antes mesmo de Peeta entrar na arena. Na trilogia, há uma inversão dos arquétipos clássicos: enquanto Katniss assume o papel do herói guerreiro, Peeta ocupa o espaço que a tradição literária costuma reservar para personagens femininas. Não é à toa. Ele não chega aos Jogos querendo provar nada. Chega querendo continuar sendo quem é – e isso, dentro de um sistema desenhado para desumanizar tudo, é um ato político antes de ser um ato pessoal. Peeta é descrito como altamente persuasivo, habilidoso com as palavras e um bom pintor – competências que a lógica da arena despreza completamente, e que Collins trata como forças genuínas.

O que torna o arco de Peeta tão interessante é que Suzanne Collins nunca deixa que a vulnerabilidade dele seja lida como ingenuidade. Josh Hutcherson, que deu vida ao personagem nos filmes, equilibrou força e vulnerabilidade de forma que falou diretamente ao público, tornando Peeta um dos personagens mais amados e memoráveis da franquia.


Mas no papel, essa tensão é ainda mais sofisticada. Peeta sabe que provavelmente vai morrer nos Jogos – e escolhe, mesmo assim, entrar na arena com seus valores intactos. Não é ingenuidade. É consciência. A diferença entre os dois importa muito, especialmente quando a narrativa distópica quer te convencer de que sobreviver exige se tornar monstruoso.

“Real ou não real?”

O terceiro livro, A Esperança, é onde Peeta encontra o maior desafio da trilogia: capturado e submetido a torturas psicológicas pela Capital, ele se torna uma peça na propaganda do presidente Snow, num conflito que se desenrola não no campo de batalha, mas dentro da própria mente. A pergunta que ele repete para Katniss enquanto tenta reconstruir a própria realidade – “real ou não real?” – não é só um recurso narrativo bonito. É a coluna vertebral do que Collins está dizendo sobre propaganda, sobre memória, sobre o que sobra de uma pessoa quando um regime tenta reescrever quem ela é.


Aliás, não por acaso, essa é também a pergunta que a própria Collins declarou ser a mais urgente para ela no momento em que escreveu Amanhecer na Colheita: o poder de quem controla a narrativa. O universo de Panem, de livro em livro, é uma meditação sobre isso, e Peeta é o personagem que paga o preço mais alto por acreditar que a verdade ainda vale alguma coisa.

O que fica, no fim das contas, não é a imagem de um personagem passivo esperando ser salvo. Peeta é descrito por leitores como alguém que, apesar de tudo pelo que passou, conseguiu voltar a ser ele mesmo – o garoto naturalmente bom e puro de coração que fazia Katniss sentir que as coisas ainda podiam melhorar, como um dente-de-leão na primavera.

Essa é a revolução pessoal dele: não virar o monstro que o sistema queria que ele fosse. Num gênero que frequentemente confunde heroísmo com brutalidade, Peeta Mellark ainda é, quinze anos depois do primeiro livro, uma das apostas mais corajosas que a ficção jovem já fez numa figura masculina. E com Panem de volta às telas em 2026, vale a pena lembrar disso.

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