Filmes
Nunca foi tão bom ser fã de filmes de terror
Com Pecadores batendo recorde histórico de indicações, gênero prova que nunca produziu tanta qualidade quanto agora
Os filmes de terror finalmente estão recebendo o reconhecimento que merecem, e não é exagero dizer que nunca vivemos um momento tão prolífico para o gênero quanto agora. As indicações do Oscar 2026 chegaram como uma confirmação do que fãs de horror já sabiam há tempos: estamos no meio de uma verdadeira era de ouro do terror. Pecadores, o épico de vampiros de Ryan Coogler, fez história ao conquistar 16 indicações e superar o recorde que pertencia a clássicos como Titanic e La La Land. Mas o filme não está sozinho nessa celebração, já que Frankenstein de Guillermo del Toro garantiu nove indicações e A Hora do Mal de Zach Cregger colocou Amy Madigan na disputa por Melhor Atriz Coadjuvante. Três filmes de terror com reconhecimento significativo em uma única edição do Oscar seria impensável há uma década.
A verdade é que o cinema de terror passou por uma transformação radical nos últimos anos, entregando obras que combinam sustos genuínos com comentários sociais profundos e performances dignas de qualquer drama prestigiado.
Basta olhar para a última década para perceber a explosão de qualidade no gênero: Corra! de Jordan Peele redefiniu o que um filme de terror poderia dizer sobre raça na América, Hereditário de Ari Aster elevou o drama familiar a níveis aterrorizantes, A Substância de Coralie Fargeat transformou body horror em manifesto sobre envelhecimento feminino, e produções como Noites Brutais, Pearl, Sorria 2 e Acompanhante Perfeita provaram que é possível ser assustador e inteligente ao mesmo tempo. O problema nunca foi a falta de qualidade das produções de terror, mas sim o preconceito histórico da Academia em reconhecer um gênero frequentemente rotulado como “entretenimento juvenil” ou “violência gratuita”.
O sucesso de Pecadores representa a quebra definitiva dessa barreira, já que Ryan Coogler utilizou vampiros como metáfora poderosa para discutir apropriação cultural, colonização e a história da música negra americana. O filme, ambientado no Mississippi dos anos 1930 durante a era Jim Crow, acompanha os irmãos gêmeos Smoke e Stack, interpretados por Michael B. Jordan em sua primeira indicação ao Oscar, enquanto enfrentam uma ameaça sobrenatural que tenta assimilar culturalmente sua comunidade. A produção conquistou indicações em praticamente todas as categorias para as quais se qualificou, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e reconhecimento para Wunmi Mosaku e Delroy Lindo nas categorias de atuação coadjuvante.
O que estamos testemunhando é mais do que um momento passageiro de reconhecimento, é a consolidação do terror como um dos gêneros mais relevantes e inovadores do cinema contemporâneo. Quando O Silêncio dos Inocentes varreu o Oscar em 1992, foi tratado como exceção, quase como se precisasse transcender o gênero para merecer respeito. Agora, filmes como Pecadores e Frankenstein estão sendo celebrados justamente por abraçarem suas raízes no terror sobrenatural, usando medo e imagens perturbadoras para criar conversas significativas sobre a condição humana. Guillermo del Toro realizou seu sonho de infância ao adaptar o romance de Mary Shelley, e Jacob Elordi transformou a Criatura em uma das performances mais comoventes do ano. Amy Madigan, aos 75 anos, voltou à disputa do Oscar 40 anos após sua primeira indicação, desta vez por interpretar uma bruxa aterrorizante em A Hora do Mal.
A cerimônia acontece em 15 de março, e pela primeira vez em muito tempo, os fãs de terror têm motivos de sobra para torcer.