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O colapso de “Riverdale”: como a série virou sinônimo de caos

O drama que prometia reinventar os adolescentes da TV terminou como uma metáfora do próprio esgotamento da era das séries

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Quando Riverdale estreou em 2017, parecia o futuro dos dramas adolescentes. Tinha mistério, estética sombria, trilha pop e um elenco pronto para dominar o Tumblr. Era a herdeira natural de Pretty Little Liars – só que mais ousada, mais moderna e com um toque noir. Mas, sete temporadas depois, a série virou um estudo sobre o que acontece quando o exagero vira rotina e o improviso substitui o roteiro. Por trás da fachada estilosa, o caos criativo tomava conta.

Nos bastidores, a desordem era quase uma regra. Em entrevistas à Teen Vogue e ao Collider, Cole Sprouse, o eterno Jughead, confessou que o elenco inteiro queria encerrar o projeto antes da última temporada. “Chegávamos ao set e recebíamos os scripts no dia da gravação. Era impossível se preparar. A essa altura, ninguém mais sabia o que estava acontecendo”, revelou. A atriz Camila Mendes, formada em artes cênicas pela NYU, admitiu que só conseguiu se preparar de verdade para “uns três episódios” antes de desistir: “simplesmente não dava mais tempo”.


Ainda assim, Riverdale seguia em frente – cada vez mais absurda. A série trocava de gênero a cada temporada: já foi mistério, musical, ficção científica, viagem no tempo e até super-herói adolescente. O público, antes envolvido, passou a rir não por humor, mas por incredulidade. Como resumiu o The Mary Sue, “o final da série foi lindo justamente por celebrar o caos que ela se tornou”.

O absurdo acabou virando parte da estética. Cenas com superpoderes, cadáveres em cadeiras de rodas e tramas que desafiavam qualquer lógica circularam pelas redes e transformaram Riverdale em combustível da cultura pop. O erro virou meme, e o meme virou entretenimento. Mas, enquanto a internet se divertia, parte do elenco lidava com problemas mais sérios.


Atrizes negras como Vanessa Morgan e Ashleigh Murray denunciaram a falta de representatividade real nos roteiros, mostrando que o problema ia além do improviso – era estrutural. Pressionado pelo movimento Black Lives Matter, o criador Roberto Aguirre-Sacasa chegou a pedir desculpas públicas e prometeu mudanças. Mesmo assim, a série já carregava o peso de ser vista como símbolo de uma indústria que produz demais e pensa de menos.

E quando o ator KJ Apa brincou dizendo que “todo mundo se pegou no set”, a resposta fria de Madelaine Petsch – “eu não fiquei com ninguém” – revelou que o humor já não mascarava o cansaço. O clima por trás das câmeras era de exaustão, não de euforia.

Dois anos após o fim, Riverdale ainda é discutida – mas não pelo que queria ser. A nostalgia deu lugar à curiosidade arqueológica: fãs revisitavam os episódios como quem tenta encontrar sentido no caos. No fim, o que começou como promessa virou diagnóstico.


O glamour das séries teens terminou quando a televisão decidiu tratar o absurdo como padrão. Riverdale não foi exceção – foi o alerta. Uma lembrança de que, às vezes, a maior ficção é acreditar que a criatividade sobrevive ao cansaço.

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