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“O Diabo Veste Prada”: os bastidores caóticos por trás do clássico
Por trás do glamour, o filme escondeu brigas salariais, indecisões criativas e improvisos dignos de novela.
Sob o brilho das revistas de moda e a aparente elegância do universo retratado em O Diabo Veste Prada, escondia-se uma história de bastidores tão afiada quanto os saltos de Miranda Priestly. O filme, lançado em 2006, foi adaptado do livro da ex-assistente da Vogue, Lauren Weisberger, e só saiu do papel por um golpe de intuição da 20th Century Fox. A executiva Elizabeth Gabler comprou os direitos antes mesmo de o livro ser finalizado, depois de ler apenas cem páginas, convencida de que ali estava “o retrato mais afiado do poder feminino na cultura pop”.
Mas o caminho até o set foi tudo menos glamouroso. Durante o desenvolvimento, ninguém sabia exatamente o que o filme seria: uma comédia leve sobre moda ou uma crítica feroz à indústria? Para achar o tom certo, o estúdio recrutou parte da equipe criativa de Sex and the City, que deu o toque sofisticado e irônico que hoje é marca registrada do longa. Mesmo assim, o roteiro passou por inúmeras versões até equilibrar humor e drama no ponto certo.
A primeira grande disputa foi pelo elenco. A Fox queria Rachel McAdams para o papel de Andy Sachs, mas a atriz recusou várias vezes para evitar papéis “comerciais”. Foi quando Anne Hathaway resolveu agir: escreveu “Hire me” (“Me contrate”) na areia do jardim da produtora e enviou a foto ao estúdio – o gesto virou lenda em Hollywood e lhe garantiu o papel que mudaria sua carreira.
Já a contratação de Meryl Streep foi um capítulo à parte. A primeira oferta, de US$ 2 milhões, foi rejeitada por ela como “ofensiva”. Só depois que o valor dobrou é que Meryl aceitou interpretar Miranda Priestly, personagem inspirada em Anna Wintour. E ela mergulhou no papel: adotou o método de imersão total, manteve distância do elenco, falava pouco e evitava risadas no set. Anos depois, admitiu que foi “deprimente viver tanto tempo dentro daquela mulher”.
O figurino – hoje um ícone do cinema – também teve sua cota de drama. As grandes grifes inicialmente se recusaram a emprestar roupas, temendo desagradar Wintour. Resultado: boa parte das peças foi emprestada discretamente por figurinistas e stylists amigos. O valor total das roupas usadas em cena ultrapassou US$ 1 milhão, tornando o filme um dos mais caros em figurino da época.
No fim, o caos se transformou em ouro. O Diabo Veste Prada arrecadou mais de US$ 326 milhões nas bilheteiras mundiais, rendeu uma indicação ao Oscar para Meryl Streep e transformou Miranda Priestly em ícone da cultura pop. O que parecia apenas uma comédia de moda acabou virando um retrato poderoso sobre ambição, poder e o preço de “sobreviver” a uma chefe infernal – com muito salto alto e zero arrependimentos.