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Por que as séries de hoje têm tão poucos episódios?

Entre a nostalgia das 22 temporadas de Desperate Housewives e os atuais seis episódios que acabam antes da gente processar o primeiro, algo mudou na TV

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Tem algo muito específico no prazer de saber que uma série vai te fazer companhia por oito meses. Aquela certeza de que toda semana, no horário combinado, as moradoras de Wisteria Lane iam aparecer com mais 23 episódios de drama suburbano, reviravoltas e personagens secundários com arcos inteiros dedicados a eles. Desperate Housewives fez isso durante oito temporadas. Gossip Girl durante seis. Quem cresceu na era dos DVDs de box completo sabe exatamente o peso emocional de abrir uma caixa dessas no aniversário. Hoje a indústria entrega seis episódios, chama de temporada e segue em frente.

Os números confirmam: segundo a Parrot Analytics, a média de episódios por temporada em séries roteirizadas americanas caiu de 15,4 para 10,2 nas redes tradicionais, e de 11,1 para 9,6 nas plataformas de streaming, entre 2018 e 2023. Uma queda de 34% nas redes abertas em cinco anos. Séries com mais de 20 episódios por temporada representavam 19% de todo o conteúdo roteirizado americano em 2018 e caíram para 4,5% em 2023.

Desperate Housewives

O motivo é dinheiro, antes de qualquer outra coisa. Temporadas menores custam menos, entregam mais rápido e permitem uma rotatividade constante de novas franquias. Isso é um modelo que os streamers aperfeiçoaram ao ponto de virar padrão de mercado. Um roteirista pode trabalhar intensamente por três meses em uma temporada de oito episódios e depois esperar dois anos para saber se a série foi renovada. É um ciclo que favorece a plataforma e deixa todo mundo, desde escritores, atores até o público, em modo de espera permanente.

O que se perde nesse modelo vai além da quantidade de horas. O número total de séries originais estreando nos EUA caiu pelo terceiro ano consecutivo em 2025, chegando a 1.122 lançamentos. Isso significa uma queda de 11% em relação ao ano anterior e um terço abaixo do pico de 1.695 séries registrado em 2022. Menos histórias, menos personagens secundários com tempo de tela suficiente para virar favoritos, menos espaço para aqueles episódios que a gente lembra décadas depois. A era do Peak TV está tecnicamente encerrada, e o que veio depois ainda não tem nome.

Grey’s Anatomy

A geração que mais cresceu maratonando TV é a mesma que menos tem o que maratonar, e essa é a parte mais difícil de engolir. Gossip Girl, Grey’s Anatomy, The O.C.: séries que construíam mitologia temporada a temporada, personagem a personagem, com trezentos episódios para explorar cada relacionamento até o fundo do poço dramático. Hoje a série acaba antes de a gente se apegar ao elenco de apoio e, quando a conexão finalmente acontece, a temporada já terminou e a renovação leva dois anos. A saudade pelas longas temporadas não é nostalgia pelo passado, é a percepção de que algo no formato foi quebrado.

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