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Por que filmes como “Meu Ano em Oxford” usam a tragédia como clickbait emocional?

A Netflix aprendeu que emoção vende, mas o que acontece quando o público se sente enganado pela promessa de um filme leve que termina em tragédia?

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Filmes românticos sempre tiveram espaço cativo no catálogo da Netflix — seja para acompanhar com a melhor amiga, assistir em um date ou afogar as mágoas em um cobertor. Só que nos últimos anos, o que parecia ser uma aposta segura em conforto emocional virou um território perigoso. A nova tendência entre as produções da plataforma é vender comédia romântica no trailer, entregar tragédia na última meia hora. E o caso mais recente é Meu Ano em Oxford, que começa como um romance colegial fofo e termina com um diagnóstico terminal.


Essa estratégia não é nova, mas a Netflix parece tê-la elevado a um novo nível. O padrão se repete: um casal jovem, cenário idealizado, montagem de cenas felizes, tudo embalado por uma trilha sonora cozy. No terceiro ato, um plot twist envolvendo câncer, morte súbita, ou algum trauma não anunciado previamente. A jogada emocional é clara: provocar catarse. Mas a maneira como isso é feito levanta questões sobre honestidade narrativa. O espectador não se sente apenas triste — se sente traído.

Outros títulos seguem essa lógica. A Lista da Minha Vida, também estrelado por Sofia Carson, causou comoção ao esconder a gravidade do enredo até o final. Purple Hearts, sucesso de 2022, flerta com esse mesmo contraste entre o que se promete e o que se entrega. É uma espécie de “romance com armadilha” — e muitos já apelidaram o estilo de trauma bait. A diferença entre essa abordagem e o que Nicholas Sparks fazia no auge está na forma como a dor é comunicada. Sparks sempre avisava. A Netflix, não.

Segundo a Cosmopolitan, essa tendência se baseia no chamado “choque emocional proposital” — quando o roteirista opta por esconder o tom real da história para maximizar o impacto final. O resultado é mais viral, mais buzz, mais TikToks com reações chorosas e comentários dizendo “achei que ia dormir sorrindo e acabei em posição fetal”. Funciona? Sim. Mas a que custo?


De um lado, há quem defenda que esses filmes apenas refletem a vida real — que é imprevisível, injusta e cheia de perdas. De outro, cresce a crítica de que a plataforma está transformando sofrimento em fórmula, repetindo o truque ao ponto da exaustão. Choro virou métrica de sucesso. E, nesse processo, histórias que poderiam ser profundas acabam reduzidas a um susto emocional.

No fim das contas, a dúvida que fica é: será que não estamos sendo treinados a reagir ao enredo em vez de senti-lo de verdade? Quando tudo é inesperadamente trágico, nada mais nos surpreende. A Netflix entendeu que o público quer sentir – mas talvez esteja passando do ponto ao transformar comédia romântica em armadilha lacrimosa.

Da próxima vez que alguém der play em um romance teen aparentemente leve, é bom perguntar: será que isso termina com um beijo ou com um velório? Porque o algoritmo já fez a aposta dele. E ele sabe que a gente não consegue resistir a uma boa choradeira – mesmo que seja um golpe baixo.

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