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Ratinho comete transfobia contra Erika Hilton no SBT: “Não é mulher”

Apresentador do SBT negou identidade de gênero da deputada trans eleita para presidir a Comissão da Mulher da Câmara

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Na noite de quarta-feira (11), durante o Programa do Ratinho no SBT, o apresentador usou o horário nobre da emissora para questionar abertamente a identidade de gênero da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), recém-eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. O que se seguiu foi uma sequência de declarações transfóbicas.

O estopim foi a notícia da eleição de Hilton para o cargo. Ao comentar o resultado da votação, Ratinho disse que não achou justa a decisão tomada na Câmara, questionando a escolha de uma mulher trans para comandar a comissão responsável por discutir políticas voltadas ao público feminino. “Ela não é mulher, ela é trans”, disse ao vivo. Na sequência, acrescentou que, na sua visão, para ser mulher seria necessário ter útero, menstruar e – numa escolha de palavras que diz muito sobre o nível do argumento – “ficar chata três, quatro dias”. O apresentador ainda disse não ter nada contra a deputada pessoalmente, mas repetiu ao longo do programa que o cargo deveria ser ocupado por outra pessoa.

Assista:

Ratinho ainda conseguiu adicionar uma camada extra ao episódio ao arrastar Pabllo Vittar para o meio da discussão. O problema é que o apresentador confundiu – ao vivo, em rede nacional – os conceitos de mulher trans e drag queen, tratando as duas identidades como sinônimas. Erika Hilton é uma mulher trans; Pabllo Vittar é uma drag queen e se identifica como homem gay. São experiências e identidades completamente diferentes, e misturá-las revela não apenas preconceito, mas também um desconhecimento básico sobre o tema que o próprio apresentador escolheu comentar.

A própria deputada respondeu nas redes sociais ainda nesta quarta, afirmando ser presidenta da Comissão da Mulher e pontuando que o fato de isso incomodar mais do que a onda de violência contra a mulher no país diz muito sobre as prioridades de quem critica. Hilton também adiantou algumas das pautas que pretende levar ao colegiado: direito ao aborto, os impactos de deepfakes, o avanço do movimento red pill e o combate à misoginia, transfobia e lesbofobia.

O padrão de Ratinho ao longo do discurso – repetir “não tenho nada contra” antes de cada nova declaração problemática – é um mecanismo retórico bastante conhecido: funciona como uma tentativa de escudo antes do golpe. O SBT não se pronunciou até o fechamento desta matéria.

O episódio chega num momento em que o debate sobre representatividade trans em espaços políticos e institucionais está mais aquecido do que nunca no Brasil. Erika Hilton é a deputada federal mais jovem eleita pelo estado de São Paulo e uma das parlamentares mais votadas de sua geração. Questionar se ela entende “os problemas de quem nasceu mulher” – enquanto ela ocupa um mandato conquistado nas urnas justamente para falar sobre direitos – é uma forma de reduzir uma trajetória política inteira a um argumento biológico que a própria ciência e o Direito brasileiro já superaram. Importante lembrar que o STF equiparou a transfobia ao racismo em 2019. Não é mais uma questão de opinião, é uma questão de lei.

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