Séries
‘Stranger Things 5’ acerta no adeus, mas tropeça no caminho
Episódio final entrega emoção e espetáculo, porém decisões questionáveis impedem a temporada de alcançar a grandeza que prometia
Depois de quase uma década acompanhando as aventuras do grupo de Hawkins, Stranger Things finalmente chegou ao seu capítulo final na virada de 2025 para 2026. O episódio “O Mundo Direito” entregou o que prometia em termos de espetáculo visual e encerramento emocional, mas a quinta temporada como um todo deixou evidente que a série sucumbiu a um problema comum das grandes produções da Netflix: a necessidade de ser maior do que ousada. O resultado é um final satisfatório que funciona apesar de suas falhas, não por causa delas, oferecendo um adeus digno para personagens que conquistaram milhões de fãs ao redor do mundo, mesmo que o caminho até ali tenha sido repleto de decisões narrativas questionáveis.
A batalha final contra Vecna e o Devorador de Mentes representa um dos grandes acertos do episódio. Pela primeira vez na temporada, todos os personagens principais estão juntos no mesmo lugar, enfrentando a ameaça definitiva da série. A sequência no Abismo, com o grupo lançando coquetéis molotov e usando lança-chamas contra o monstro enquanto Eleven mergulha dentro da criatura para confrontar Henry Creel, é visualmente impressionante e emocionalmente satisfatória. A revelação sobre a verdadeira origem dos poderes de Henry, mostrando que o Devorador de Mentes o possuiu quando ainda era criança após encontrar uma rocha contendo partículas da criatura, fecha um arco que vinha sendo construído desde a segunda temporada. O ator Jamie Campbell Bower explicou que essa memória traumática era algo que Henry evitava confrontar por causa do que aconteceu com ele no deserto de Nevada quando menino.
O destino de Eleven é, sem dúvida, o elemento mais controverso e emocionalmente devastador do episódio. Os Duffer Brothers deixaram para os espectadores decidirem como interpretar o final da personagem, com Ross Duffer afirmando que ela vive nos corações dos amigos, seja isso real ou não. Após a destruição do Mundo Invertido, Mike compartilha sua teoria de que Kali usou seus últimos momentos para criar uma ilusão, fazendo parecer que Eleven morreu enquanto a verdadeira Jane escapava para viver em paz em algum lugar remoto. O episódio mostra Eleven caminhando sozinha em uma paisagem que lembra a Nova Zelândia, com pelo menos duas cachoeiras ao fundo. É um final agridoce que, embora poeticamente apropriado para uma personagem que nunca teve escolha sobre seu próprio destino, parece contraditório com a filosofia declarada dos criadores de não matar personagens principais. Se a proposta era um final feliz para todos, por que Eleven é a única que precisa abrir mão de sua família construída para encontrar liberdade?
O epílogo de aproximadamente quarenta minutos divide opiniões justamente por sua extensão. Cada cena individual que acontece dezoito meses depois é boa ou até excelente, mas quando colocadas juntas, a sequência se torna tediosa. Ver Dustin fazendo o discurso de formatura, Steve virando técnico de futebol infantil e professor de educação sexual em Hawkins, Hopper pedindo Joyce em casamento e o casal planejando se mudar para Montauk (uma referência ao fato de que a série originalmente seria ambientada lá), Lucas e Max finalmente tendo aquele encontro no cinema para assistir Ghost, e Will encontrando aceitação na faculdade com um namorado no horizonte são momentos genuinamente emocionantes que honram a jornada dos personagens. O problema é que, enquanto os Duffer dedicaram tanto tempo a essas despedidas, personagens como a mãe da Max ou Murray simplesmente desapareceram da narrativa sem qualquer menção.
As escolhas narrativas da quinta temporada revelam uma série que perdeu confiança em sua própria história. Os personagens explicam excessivamente tudo o que estão pensando e planejando, em um estilo projetado para ser assistido enquanto você dobra roupas ou guarda os presentes de Natal. O arco dos militares, liderado pela Dra. Kay interpretada por Linda Hamilton, consome tempo precioso que poderia ter sido dedicado ao desenvolvimento do grupo principal. A morte de Kali representa um erro não-forçado dos roteiristas, trazendo de volta uma personagem ligada ao episódio mais criticado da série apenas para matá-la de forma pouco memorável. Por que trazer de volta uma personagem amarrada a uma linha narrativa rejeitada, apenas para eliminá-la? Joyce, que na primeira temporada era uma mãe completamente obcecada em encontrar o filho desaparecido, aqui se tornou uma coadjuvante de luxo que passa a temporada andando de um lado para outro sem propósito claro.
A conexão com a peça teatral The First Shadow também se mostra problemática. A decisão dos Duffer Brothers de revelar a origem importante do vilão em uma peça da Broadway que pouquíssimos espectadores tiveram a chance de assistir será para sempre uma das escolhas mais desconcertantes da história da televisão. A série tenta ao mesmo tempo abraçar e ignorar o cânone estabelecido no palco, criando inconsistências que incomodam quem conhece a história completa. Se Joyce e Hopper estudaram com Henry Creel e sabiam sobre os eventos daquela época, por que isso nunca foi mencionado nas cinco temporadas? A sensação é de que os criadores ficaram em cima do muro, querendo que a peça fosse importante sem se comprometer totalmente com suas implicações.
A recepção da temporada reflete essas contradições internas. O score de audiência no Rotten Tomatoes despencou para 57% após o lançamento do Volume 2, o menor da série, comparado aos 86% ou mais das temporadas anteriores. Parte da controvérsia envolve a cena em que Will finalmente se assume gay para os amigos, um momento que dividiu o público não pelo conteúdo, mas pela execução. Stranger Things lutou durante cinco temporadas para saber o que fazer com Will, que começou como a vítima de sequestro quase sem personalidade e nunca evoluiu muito a partir daí. A sequência, que interrompe o clímax da ação com um monólogo extenso, pareceu mal posicionada e escrita por pessoas que não viveram aquela experiência, apesar de Noah Schnapp ter declarado que filmou a cena por quase 24 horas e chorou ao ler o roteiro pela primeira vez.
Apesar de todas as ressalvas, é impossível negar o impacto cultural que Stranger Things teve ao longo dessa jornada. A série conseguiu o raro feito de apelar para a geração que cresceu nos anos 80, seus filhos e até seus pais, sentindo-se fresca e imediata mesmo estando mergulhada na cultura da época. O encerramento, com Holly Wheeler e suas amigas assumindo a mesa de Dungeons & Dragons no porão dos Wheeler enquanto Mike passa o bastão para a próxima geração, captura perfeitamente o tema central da série: crescer significa aceitar que as coisas que amamos eventualmente precisam seguir em frente. O que começou como uma aventura de ficção científica assustadora para crianças evoluiu para uma alegoria épica de amadurecimento. Stranger Things pode não ter alcançado a grandeza que sua premissa prometia, mas conseguiu algo igualmente valioso: um adeus que, mesmo imperfeito, funciona porque paga suas dívidas emocionais com os personagens e com o público que os acompanhou por quase uma década.