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“Vale Tudo” entrega um dos piores finais de novela dos últimos tempos
Quando “Odete viva” virou o plot central do final de Vale Tudo (2025), o impacto parecia promissor – mas o que vimos na tela se transformou em um espetáculo de incoerências digno de espetáculo circense. A versão de Manuela Dias trazia expectativas altas: atualizar um clássico da teledramaturgia, manter tensões morais, mistério e uma resolução à altura. Em vez disso, entregou um enrosco de lógica frágil, personagens que perdem coerência e desfechos que soam como “porque sim”.
Primeiro: Maria de Fátima no meio de cavalo, mosquitos e cheiro de escremento? Reatar com César, após ele não dar um centavo para o filho herdeiro? Alguém se perdeu no roteiro. O público merecia uma explicação que fizesse um mínimo de sentido. Odete sangrando horas no quarto, declarada morta pelo delegado e pelos peritos, César ficando com metade da fortuna, e ainda assim ela circula livre como se nada tivesse acontecido? Por que ela fugiria do país se ninguém ganhou nada com a “morte” dela e se os outros personagens, que deveriam responder por crime ou trama, ficam literalmente andando por aí? Heleninha acha que matou a mãe – e não há consequência real disso. Léo, Celina, Freitas, todos tratados como figurantes de um rebuliço que não exige nada além de passividade.
E o clímax: o mistério “quem matou Odete” vira uma piada ao manter a vilã viva, fugir, fingir morte, reaparecer triunfante. Um dos maiores momentos da novela brasileira – o assassinato de Odete Roitman – foi, nesta versão, esvaziado de peso dramático. Em vez de dar fechamento, entregou assombração narrativa. A decisão de manter Odete viva nesta versão é descabida. A revelação do assassino, em flashback rapidíssimo e quase decorativo, soou póstuma e vazia.
Não se trata de nostalgia barata ou apego à versão original, mas de exigência básica de dramaturgia: que personagens ajam de acordo com o que lhes foi estabelecido e que conseqüências acompanhem escolhas importantes. Aqui, a falta de coesão entre “quem é quem”, “o que querem” e “o que recebem” virou padrão. O remake – que já vinha sendo apontado por suavizar tensões, diluir críticas sociais e balizar o conflito de classes com leveza excessiva – nesse último ato se perde completamente.
E sim, sobra o mérito dos atores – Débora Bloch, Paolla Oliveira, Bella Campos e demais escalados seguram o barco com empenho. Mas talento não salva um navio naufragando por dentro. A direção, o texto e o fechamento de trama aqui funcionam mais como tela de distração do que como culminação de uma narrativa que se propôs grandiosa.
Resumindo: foi um dos piores finais da história da teledramaturgia recente, o que agrava ainda mais, considerando tratar-se do remake de um dos maiores clássicos da TV brasileira. Um desrespeito do começo ao fim, com furos de roteiro, resoluções ridículas e uma sensação latejante: esperávamos mais. Muito mais.