Música
Integrantes das Pussycat Dolls não eram donas do próprio nome e recebiam US$ 500 por semana
De contratos abusivos e salários irrisórios a acusações gravíssimas de exploração sexual – a história das Dolls vai muito além do que se vê no palco
A turnê PCD Forever foi anunciada na semana passada e reacendeu uma chama que nunca apagou de verdade: a fascinação coletiva pelas Pussycat Dolls. Mas junto com a nostalgia vieram as perguntas que sempre acompanham o grupo como uma sombra. O que exatamente acontecia nos bastidores de um dos projetos mais bem-sucedidos e mais turbulento da história do pop dos anos 2000?
A resposta é longa, complexa e, em vários momentos, incômoda. Porque a história das Dolls nunca foi só sobre dança, estética e single atrás de single. Foi também sobre poder, dinheiro, silêncio e o custo humano de se manter dentro de uma máquina projetada para girar sem parar.
Uma ideia genial com contrato de funcionária CLT
Tudo começou em 1995, quando a coreógrafa Robin Antin criou o conceito original das Pussycat Dolls como uma trupe de espetáculos de burlesque em Los Angeles. O projeto ganhou tração, atraiu celebridades como Gwen Stefani e Christina Aguilera para noites especiais, e chegou aos ouvidos do produtor Jimmy Iovine, da Interscope Records.
Iovine se envolveu com o grupo e ajudou a transformá-lo em uma franquia musical, fazendo com que a antiga trupe de dança se tornasse, formalmente, empregada de sua gravadora. É aqui que a coisa começa a ficar interessante – e problemática.

O nome Pussycat Dolls pertencia a Robin Antin e à Interscope em igual proporção. As integrantes – Nicole Scherzinger, Melody Thornton, Carmit Bachar, Ashley Roberts, Jessica Sutta e Kimberly Wyatt – eram contratadas como “membros do elenco”. Em outras palavras: elas não eram as Pussycat Dolls, elas trabalhavam para as Pussycat Dolls. Não possuíam fatia do nome, não tinham participação nos royalties da marca e não tinham controle criativo sobre os projetos. Eram talento alugado em um produto que pertencia a outras pessoas.
A ex-integrante Kaya Jones, que participou do projeto antes do lançamento do primeiro álbum, chegou a revelar que as integrantes recebiam 500 dólares por semana enquanto eram, nas palavras dela, “abusadas e usadas”. O contraste financeiro com outros artistas da mesma gravadora, no mesmo período, era gritante – e não passou despercebido pelas próprias integrantes.
Jones saiu do grupo em 2004, antes do estouro comercial de Don’t Cha, e afirmou que abandonou um contrato de 13 milhões de dólares por não aguentar mais as condições. Naquele momento, porém, ninguém prestou muita atenção. O mundo só estaria pronto para ouvir anos depois.
A questão Nicole: vilã ou vítima do sistema?
Nenhuma polêmica do grupo gerou mais debate do que o papel de Nicole Scherzinger. A dinâmica era visível até para quem assistia pelos clipes: Nicole no centro, Nicole cantando, Nicole com o close. As outras cinco faziam as coreografias, existiam nos palcos e nas fotos, mas raramente apareciam com microfones ativos.
Em 2012, no especial Behind the Music da VH1, Scherzinger revelou que gravou 95% dos vocais do grupo sozinha, assumindo tanto a linha principal quanto os backing vocals, enquanto as outras integrantes mal participavam das sessões de estúdio. A declaração causou alvoroço porque confirmou o que já era amplamente percebido, mas colocou Nicole numa posição ambígua. Era ela a privilegiada que sufocava as colegas, ou era ela também uma engrenagem de um sistema que ninguém no topo queria desmontar?

Em entrevista à People, Scherzinger explicou que o grupo foi estruturado de forma que ela fosse a “quarterback”, aquela que lideraria o conjunto. As outras eram, predominantemente, dançarinas excepcionais, e ela precisou trabalhar muito para poder se colocar ao lado delas em termos de performance.
Do outro lado dessa equação estava Melody Thornton, a única outra vocalista contratada pelo talento no canto, e que terminou a experiência destruída. Melody abriu o jogo em 2019 e contou que o período nas Dolls foi devastador para sua autoestima: ela se sentia constantemente apontada como o elo mais fraco do grupo, e o impacto psicológico foi profundo. “Eu nunca tinha me sentido insegura até entrar nas Pussycat Dolls”, disse ao Mirror.
Não é difícil imaginar o peso disso: ser contratada como cantora, ter uma das melhores vozes do grupo e ser sistematicamente colocada de escanteio enquanto a máquina toda girava em torno de outra pessoa.
As acusações mais graves: quando o palco virou um tribunal
Em 2017, no auge do movimento #MeToo, Kaya Jones voltou ao centro da conversa com uma série de posts que chocaram o mundo da música. Jones publicou que não tinha sido membro de um girl group, mas de um “anel de prostituição” – afirmando que as integrantes eram submetidas a avanços sexuais de executivos e coagidas a ceder.

A fundadora Robin Antin reagiu chamando as alegações de “mentiras ridículas e repugnantes” e questionando a credibilidade de Jones, apontando que ela nunca teria sido uma membro oficial do grupo. As próprias Dolls também se manifestaram em nota coletiva, negando os acontecimentos e dizendo que, embora apoiassem mulheres que denunciam abusos, não podiam endossar alegações de coisas que “simplesmente não aconteceram”.
O caso não chegou a ser investigado formalmente, e as acusações permaneceram no limbo – graves demais para ser ignoradas, sem provas suficientes para ser provadas. Anos depois, quando o caso de Sean Combs voltou a colocar a indústria musical sob escrutínio, Jones retomou o assunto afirmando que é triste que sempre seja necessário um novo caso de alto perfil para que as pessoas entendam o tipo de exploração que ocorre nesses espaços.
O processo de 2021
Quando as Dolls tentaram se reunir em 2019, a trajetória até os palcos foi mais tortuosa do que qualquer bastidor divulgado pela imprensa. Em 2021, Robin Antin processou Scherzinger alegando que ela tentava renegociar os termos da reunião, exigindo maior controle criativo e uma fatia maior dos negócios – segundo Antin, ela teria pedido de 49% para 75% de participação.

Nicole contraprocessou, alegando que Antin havia recebido adiantamentos financeiros para o projeto e desviado os recursos para gastos pessoais, deixando a cantora tendo que bancar do próprio bolso parte da produção. Scherzinger exigiu 1,1 milhão de dólares em danos e acusou Antin de ter “arruinado sua capacidade de fazer negócios por meio de auto-favorecimento, desperdício e fraude”.
O litígio se arrastou por quatro anos, com múltiplos adiamentos e um acordo tentativo em maio de 2024 que demorou mais meses para ser finalizado. O impasse foi resolvido com um acordo confidencial no final de 2025, cujos termos nunca foram divulgados ao público.
O padrão que nunca mudou
O que a história das Pussycat Dolls revela, quando vista de uma só vez, é um padrão que atravessa décadas: mulheres talentosas colocadas dentro de uma estrutura onde o controle criativo, a propriedade intelectual e os lucros pertencem a outras pessoas. Cada vez que uma delas tentou renegociar, reclamar espaço ou simplesmente ser ouvida, o sistema reagiu — às vezes com o silêncio, às vezes com processos, às vezes com o cancelamento de turnês inteiras.

A própria Carmit revelou recentemente que sua saída do grupo em 2008 não foi voluntária: a gravadora lhe deu um ultimato entre o projeto próprio que ela estava desenvolvendo há anos e a vaga no grupo, sem possibilidade de conciliar os dois. Mesmo sendo a integrante mais antiga – aquela que estava presente antes de qualquer contrato com gravadora – ela descobriu naquele momento exatamente qual era o seu peso dentro da estrutura. Não era muito.
Agora, em 2026, a PCD Forever Tour começa em junho com Nicole, Ashley e Kimberly. Carmit e Jessica ficaram de fora sem serem consultadas. Melody não foi convidada, como em 2019. Scherzinger disse ao BBC que “as pessoas estão em lugares diferentes nas suas vidas” – e talvez seja verdade. Mas a frase também soa como um eco de cada vez que alguém, ao longo de 30 anos, tentou dizer algo sobre as Pussycat Dolls e foi gentilmente convidado a ficar em silêncio.
Música
O show histórico de Olivia Rodrigo em Barcelona virou debate por causa de um babydoll
A polêmica em torno do look babydoll da cantora em Barcelona escancarou, mais uma vez, o campo minado que é ser uma mulher no pop
No último dia 8 de maio, Olivia Rodrigo subiu ao palco do Teatre Grec, em Barcelona, para um show íntimo e absolutamente histórico: o Spotify reuniu 1.500 superfãs selecionados pelo próprio aplicativo para celebrar os nove singles da cantora que ultrapassaram 1 bilhão de streams na plataforma – entre eles Drivers License, Good 4 U, Deja Vu, Vampire e Jealousy, Jealousy. A cantora recebeu placas comemorativas, tocou 14 músicas em menos de uma hora e ainda apresentou ao vivo drop dead, o primeiro single do seu terceiro álbum, you seem pretty sad for a girl so in love. Era, por qualquer ângulo que você olhasse, uma noite de celebração. Mas o que foi mais falado no dia seguinte não foi nada disso.

Para a ocasião, Rodrigo escolheu um babydoll blouse da marca Génération78, da coleção “Crush Loves Drama”, combinando com bloomers e botas cano longo. O look era coerente com a estética que ela vem construindo no ciclo do novo álbum – uma espécie de femininidade caótica, igual partes Courtney Love e boneca de porcelana. Só que parte da internet decidiu que o vestido era, na verdade, uma peça problemática.
Nos comentários do X e do Instagram, usuários afirmaram que a silhueta frisada “infantilizava e sexualizava” a cantora de 23 anos ao mesmo tempo, uma lógica que, se você parar pra pensar, é basicamente impossível de vencer. Tinha gente comparando o vestido a roupinha de bebê, outros dizendo que era “inapropriado”. O show em si ficou em segundo plano.
O que aconteceu com Olivia é o mesmo roteiro que a gente vê se repetir há décadas com mulheres no pop. Quando Billie Eilish apareceu no início da carreira coberta de roupas largas, foi criticada por não “se vestir como menina”, e precisou ir a público explicar que usava roupas assim justamente para escapar da objetificação. Em uma campanha da Calvin Klein em 2019, ela disse que ninguém poderia opinar sobre o corpo dela porque não havia visto o que estava por baixo.
Existe um padrão duplo tão escancarado que já seria quase engraçado se não fosse tão cansativo. Justin Bieber se apresentou no Grammy usando apenas boxers e meias, e a leitura foi de que era uma performance “sem roupa”, corajosa, simbólica. Adam Sandler aparece em premiações de pijama e o mundo inteiro acha fofo. Mas uma mulher de 23 anos aparece num vestido florido numa festa de streaming em Barcelona, e a conversa vira sobre inadequação. O que a roupa da Olivia Rodrigo revelou não foi nada sobre a Olivia Rodrigo – foi o quanto ainda é fácil transformar o visual de uma mulher num debate público.
No fim, o que importaria discutir é o seguinte: ela foi até Barcelona com nove singles bilionários e um novo álbum na manga. Deu um show de 14 músicas que deixou os 1.500 presentes sem voz. Isso é o que aconteceu. O vestido é só um vestido.
Música
Shakira se assusta com máscara de Piqué em show; veja o vídeo
No meio da turnê mais lucrativa da história da música latina, uma fã levantou uma máscara do ex-jogador durante a música que ele inspirou
Shakira estava cantando a BZRP Music Sessions #53 – aquela em que ela literalmente processa o fim do casamento em versos afiados – quando uma fã na plateia levantou uma máscara do ex-marido Gerard Piqué com olhos flamejantes, língua vermelha comprida e chifres de diabo. A reação de Shakira foi de susto genuíno, e o vídeo não demorou nada para tomar as redes sociais.
O momento aconteceu durante a passagem da turnê por El Salvador, onde Shakira fez cinco noites no Estadio Nacional Jorge “Mágico” González em San Salvador, parte da segunda etapa da Las Mujeres Ya No Lloran World Tour. A turnê já se tornou a mais lucrativa da história da música latina: mais de 421 milhões de dólares arrecadados até março de 2026 e mais de 3,3 milhões de pessoas no público.
Não foi a primeira vez nesta semana que o nome do ex veio à tona. No sábado (2) durante o evento Todo Mundo no Rio na Praia de Copacabana, parte da plateia reagiu com gritos direcionados ao ex-jogador depois de um discurso de Shakira sobre mães solteiras. A separação, anunciada em junho de 2022 após reportagens da imprensa espanhola sobre uma suposta traição, virou combustível criativo para Monotonía, TQG com Karol G e a sessão com Bizarrap – e aparentemente ainda não saiu do radar do público.
A turnê segue até outubro de 2026, com encerramento em Madri.
Música
Por que o Brutal Paraíso de Luísa Sonza dividiu o público
Com 23 faixas e 67 minutos de duração, o quinto álbum da artista gaúcha chegou com tudo – campanha intensa, Coachella e um conceito ambicioso – e ainda assim não emplacou como Escândalo Íntimo
Quando Brutal Paraíso chegou às plataformas no dia 7 de abril, a expectativa era enorme. Luísa Sonza tinha acabado de se consolidar como um dos maiores nomes do pop brasileiro, ainda na esteira do recorde histórico de Escândalo Íntimo – mais de 15 milhões de streams nas primeiras 24 horas no Spotify Brasil. Três anos depois, o quinto álbum de estúdio da artista gaúcha estreou com pouco mais de 2,5 milhões de reproduções no mesmo período, com 13 faixas entrando no Top 200 da plataforma. Os números não são ruins. Mas a comparação foi inevitável – e cruel.

Parte da recepção morna tem menos a ver com o álbum em si e mais com o contexto que cerca a figura pública de Luísa. Desde os tempos de relacionamento com Whindersson Nunes, passando pelo caso de racismo envolvendo a advogada Isabel Macedo de Jesus em 2018 – que a artista demorou para reconhecer publicamente -, até a cena no programa da Ana Maria Braga após a traição do Chico Moedas logo depois do lançamento de Escândalo Íntimo, a imagem da Luísa carrega um peso que boa parte dos outros artistas brasileiros simplesmente não tem. Não é que as polêmicas sejam novas. É que elas criaram uma régua diferente: qualquer tropeço do álbum vira amplificado, qualquer defesa vira suspeita de marketing.
Isso ficou visível no próprio lançamento. Enquanto o álbum chegava às plataformas, a cantora estava respondendo críticas e engajando em discussões no X, comportamento que uma parcela do público leu como combativo aos próprios fãs e que ajudou a esquentar um ambiente que já estava acirrado antes da primeira faixa tocar.

Ambição sem corte
Mas seria injusto colocar tudo na conta da polêmica. Brutal Paraíso tem problemas estruturais reais. Com 23 faixas e 67 minutos de duração, o álbum é ambicioso a ponto de se perder. A proposta de dividir o projeto em três blocos sonoros – abertura com influências de bossa nova e MPB, meio de funk e pop dançante, reta final melancólica e introspectiva – funciona no papel, mas na prática cria uma experiência fragmentada. Quando você chega nas baladas reflexivas da terceira parte, a fadiga de escuta já deu o ar da graça.
A faixa de abertura, Distrópico – que brinca com “distópico” e “trópico” para anunciar a dualidade do disco -, prometia um álbum amarrado em torno da tensão entre paraíso e brutalidade. Essa ideia, porém, só aparece de forma explícita na faixa-título, de oito minutos, que encerra o trabalho. Os outros 22 tracks navegam por temas e estéticas sem que o fio conceitual apareça com clareza suficiente para sustentar a jornada.
O que funciona – e muito
Isso não quer dizer que Brutal Paraíso seja um álbum ruim. Longe disso. Fruto do Tempo, com sample de Caetano Veloso, é uma das melhores faixas que Luísa já lançou. Telefone tem um gancho irresistível, ainda que termine antes de você querer que termine. Tu Gata, com Sebastián Yatra, entrega exatamente o que promete. E a faixa-título em si é genuinamente emocionante – uma carta de oito minutos onde a artista olha para a própria carreira, para tudo que viveu e sobreviveu, com uma vulnerabilidade difícil de ignorar.
Há algo genuíno na origem do projeto: a ideia de que o paraíso não some, mas se revela brutal. O que falta é essa sinceridade atravessar o álbum inteiro com a mesma intensidade.
Brutal Paraíso é o álbum de uma artista que claramente cresceu, que ouviu jazz, que tem referências e que não quer mais ser encaixada numa caixinha. E crescer custa – especialmente quando ninguém corta. Se Escândalo Íntimo funcionou apesar das polêmicas foi porque o disco era redondo, direto e cheio de momentos que prendiam: Campo de Morango, Chico, Penhasco – Parte 2... Aqui, a Luísa apostou em ambição e entregou um projeto maior do que precisa ser. Com dez faixas a menos, Brutal Paraíso poderia facilmente ser o melhor álbum da carreira dela. Como está, tem muito a dizer – e às vezes não deixa ninguém ouvir.
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