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Backrooms: o mito que nasceu em um fórum anônimo e virou o filme de terror mais aguardado de 2026
Com o filme dirigido por Kane Parsons, a A24 transforma um dos maiores mitos da internet em estreia cinematográfica
Teve um momento em 2022 em que a internet parou para assistir um vídeo de nove minutos postado por um adolescente de 16 anos da Califórnia. Sem orçamento, sem distribuidora, sem assessoria de imprensa – só Blender, Adobe After Effects e uma compreensão intuitiva do que deixa as pessoas desconfortáveis. O vídeo era The Backrooms (Found Footage), de Kane Parsons, e ele acumulou sete milhões de visualizações nos primeiros dois dias. Hoje, com 20 anos, Parsons é o diretor mais jovem da história da A24. O segundo trailer de Backrooms foi divulgado na última semana, confirmando a estreia para 29 de maio de 2026 – e sinalizando que a relação entre internet e Hollywood nunca mais vai ser a mesma.
Do 4chan para o cinema
A história começa, como tantas histórias da internet, num lugar improvável: o fórum anônimo 4chan. Em maio de 2019, um usuário postou no board de paranormal da plataforma uma foto de um ambiente amplo, com carpete e iluminação fluorescente, pedindo que outros usuários compartilhassem imagens que pareciam “erradas” de algum jeito.
A imagem, que mais tarde seria identificada como uma loja de hobbies em Wisconsin passando por reforma, gerou uma resposta anônima que se tornaria o texto fundador de uma das maiores mitologias coletivas da internet: a descrição de um labirinto infinito de quartos amarelos, acessível apenas para quem “noclipasse para fora da realidade” – termo emprestado do universo dos games, onde um bug permite que o jogador atravesse paredes e caia no vazio por baixo do mapa.
A criepasta se espalhou para o Reddit, depois para o TikTok (a hashtag #liminalspaces acumulou quase 100 milhões de visualizações na plataforma, e chegou ao YouTube na forma de curtas-metragens que expandiram o lore em direções que o post original jamais poderia imaginar. O criador de Severance, Dan Erickson, chegou a citar os Backrooms como uma das inspirações para a série da Apple.
O garoto que virou diretor
Kane Parsons não inventou os Backrooms. O que ele fez foi algo mais difícil: entendeu o que tornava aquele mito perturbador e encontrou uma linguagem visual para isso. Usando Blender e After Effects, levou um mês para produzir o primeiro curta, apresentado como uma fita VHS gravada por um cineasta que acidentalmente entra nos Backrooms nos anos 1990 e é perseguido por uma criatura.
A série completa já ultrapassa 197 milhões de visualizações. Com ela, Parsons se torna o cineasta mais jovem a assinar um projeto com a A24 – uma produtora que, desde Hereditário, construiu uma reputação de fazer apostas incomuns render culturalmente. O roteiro foi escrito por Will Soodik, veterano de Westworld, e o elenco reúne os indicados ao Oscar Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. A produção conta ainda com James Wan (Atomic Monster) e Shawn Levy (21 Laps Entertainment) como produtores.
A lógica dos liminal spaces como estética de uma geração
Não é coincidência que os Backrooms tenham explodido exatamente nesse momento. A estética dos liminal spaces – espaços de passagem esvaziados de seu propósito, corredores de aeroporto às 3 da manhã, shoppings fechados, piscinas vazias – ressoa com uma geração que cresceu sentindo que o mundo ao redor estava ligeiramente deslocado do que deveria ser.
O professor de estudos de internet Tama Leaver identificou que o horror dos Backrooms vem justamente dessa “estranheza familiar” – ambientes que parecem conhecidos, mas estão visivelmente errados. Não há monstro em cena. A ameaça é arquitetônica. É o corredor que não termina, a luz fluorescente que não apaga, o cheiro de carpete molhado que você sente mesmo sem ter estado lá. Isso não é um bug estético – é o idioma de uma geração que passou a adolescência processando ansiedade através de memes, vídeos do YouTube e mundos colaborativos construídos por desconhecidos na internet.
Backrooms não é um caso isolado. O criador de conteúdo Markiplier lançou Iron Lung de forma independente e o filme ultrapassou 43 milhões de dólares nas bilheterias globais – depois de ter sido rejeitado por múltiplos estúdios. O que Parsons e a A24 estão fazendo é dar um passo além: levar esse pipeline internet-cinema para dentro da estrutura de uma produtora com histórico de prestígio e alcance de premiações.
O segundo trailer de Backrooms entrega exatamente o que os fãs precisavam: há uma trama com textura emocional (uma terapeuta que entra nos Backrooms para resgatar um paciente desaparecido), há criaturas, há tensão. Mas a película de found footage que fez o meme funcionar ainda está lá, respirando por baixo da produção de estúdio. A pergunta que fica não é se o filme vai ser bom. É o que acontece com Hollywood quando a geração que cresceu no YouTube finalmente chega ao outro lado da câmera.