Filmes
Como as final girls tomaram o controle dos filmes de terror
De símbolo da pureza a ícone de resistência, as protagonistas do horror transformaram o gênero
Nos anos 1970, o cinema de terror vivia sua era de ouro – e também a mais moralista. Sob o pretexto do susto, o gênero funcionava como um código de conduta: quem bebia, morria; quem transava, morria; quem obedecia, vivia. Nessa lógica, a chamada “Final Girl”, ou “garota final”, surgia como o prêmio pelo bom comportamento. Era a sobrevivente que escapava da carnificina por ser “pura”, disciplinada ou simplesmente sortuda o suficiente para estar no lugar certo na hora errada.
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O termo foi cunhado e analisado pela pesquisadora Carol J. Clover em seu livro Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film (1992), que examinou como o público dos slashers – os filmes de terror com assassinos em série dos anos 70 e 80 – acabou migrando sua identificação do vilão mascarado para a mulher que resistia até o fim.
No início, essas protagonistas seguiam um molde quase institucional: jovens, discretas, “boas moças” que venciam o mal por mérito moral, não por escolha. Elas sobreviviam mais por pureza do que por instinto. Mas a partir do final dos anos 70, esse perfil começou a se desmanchar. Laurie Strode, de Halloween (1978), e Sidney Prescott, de Pânico (1996), foram o ponto de virada: deixaram de apenas sobreviver e passaram a revidar. Quando empunharam a faca e encararam o assassino de frente, o público percebeu – o prazer do terror não estava mais em ver quem morria, e sim em ver quem revidava.
Nos anos 2000 e 2010, as Final Girls deixaram de ser vítimas exemplares e se tornaram protagonistas conscientes. O terror passou a refletir medos reais: da violência doméstica, da opressão, da pressão social. Filmes como Casamento Sangrento (2019) e Midsommar (2019) reinventaram a figura feminina dentro do horror: agora, a sobrevivência não era uma recompensa, era um ato de autonomia. As novas heroínas sangram, erram, gritam, riem – e fazem piada do assassino tropeçando na própria armadilha.
Essa transformação fez o gênero dar um giro completo. O terror, que por décadas serviu para controlar o corpo e o comportamento das mulheres, virou uma vitrine de resistência e liberdade. A Final Girl de hoje é uma síntese da raiva contida, da esperteza e da ironia que substituíram o moralismo. A nova regra é simples: quem sobrevive, dirige.
O medo não acabou – ele só mudou de endereço. Agora, o horror serve menos para punir e mais para libertar. Se antes o grito feminino marcava o pânico, hoje ele ecoa como um grito de poder.