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O que aconteceu com o Timothée Chalamet que a gente amava?
De príncipe frágil do cinema indie a alvo número um da internet – o que aconteceu com o Timmy que a gente adorava?
Existe um ritual silencioso na cultura pop que a internet nunca vai admitir que faz, mas que pratica com uma consistência quase artesanal: ela escolhe alguém, coloca essa pessoa num pedestal, alimenta o culto por anos – e então, numa tarde qualquer, decide que já chega. Timothée Chalamet está vivendo esse ritual em tempo real, e a temporada de premiações de 2026 vai entrar para a história não só por Marty Supreme ou pelo balletgate, mas pela pergunta que ninguém quer responder em voz alta: a gente deu atenção demais para o Timmy?
Para entender o que está acontecendo agora, é necessário voltar um pouco. Chalamet virou fenômeno num período muito específico da indústria do entretenimento: quando Hollywood estava com sede de um tipo de estrela que parecia ao mesmo tempo acessível e inalcançável, sensível e enigmático. Me Chame Pelo Seu Nome entregou exatamente isso, e a internet tratou de transformar o ator numa espécie de representação coletiva de algo que a geração toda queria sentir.
O Timmy do harness brilhante no Globo de Ouro, que parecia genuinamente surpreso com o próprio sucesso, virou ícone cultural antes mesmo de completar 25 anos. O problema de construir um personagem tão específico é que qualquer desvio do roteiro parece uma traição pessoal.

A campanha que foi longe demais
A campanha de Marty Supreme incluiu subir na Las Vegas Sphere, descrever o próprio trabalho como “top level” e chamar Kylie Jenner de “parceira” repetidamente em entrevistas – o que soa mais como terminologia de investidor do que de namorado. No início, isso parecia interessante. Um Timmy novo, mais confiante, com energia de protagonista consciente de si mesmo. Mas temporadas de premiações longas têm um custo – e a sobrexposição tem um ponto de inflexão que é difícil de prever e impossível de reverter quando já chegou.
Analistas e críticos já apontavam que, independente da qualidade inegável de sua atuação em Marty Supreme, o ator estava “MUITO sobrexposto” na corrida ao Oscar deste ano.

E aí vieram as críticas de Chalamet contra o balé e a ópera… Uma leitura mais cuidadosa da polêmica sugere que a irritação com Chalamet vinha de antes, e que o comentário sobre o balé funcionou como gatilho para uma frustração acumulada, especialmente porque, pela primeira vez na carreira, ele pareceu atingir justamente o público feminino que o catapultou ao estrelato. Insultar o balé, uma forma de arte profundamente associada às mulheres da própria família dele – a avó, a mãe e a irmã dançaram no New York City Ballet – tocou em algo que ia além da polêmica superficial.
Para contextualizar ainda mais o timing, uma contribuidora da ABC News lembrou que a temporada de premiações funciona como uma campanha política, e que é comum ver entrevistas antigas ressurgindo estrategicamente nas semanas antes do Oscar. O clip tinha duas semanas quando explodiu. Isso não foi coincidência.
O que o episódio revelou de forma bastante clara é que o Oscar de Melhor Ator de 2026 se transformou menos numa disputa de performances e mais numa votação de popularidade – e Michael B. Jordan, “rei sem polêmicas” como a internet o batizou, foi beneficiado diretamente pela turbulência do adversário.

Chalamet perdeu o prêmio do Screen Actors Guild para Jordan, perdeu o BAFTA para Robert Aramayo, e Marty Supreme saiu de mãos vazias nas duas cerimônias. O Oscar, cuja votação encerrou antes do balletgate atingir o pico, ainda é uma incógnita – mas o que ficou claro é que a narrativa ao redor do ator mudou de forma perceptível e rápida. A própria CNN descreveu 2026 como a temporada de premiações mais caótica dos últimos anos, com Chalamet no centro da tempestade.
Nenhuma carreira vai acabar aqui
A questão que vale fazer é se isso tudo sinaliza algo grave ou se é apenas o rito de passagem obrigatório para quem quer mesmo jogar nas grandes ligas. Todo artista que chegou ao nível de “grande” passou por um momento em que a internet decidiu que já era suficiente. Às vezes o backlash é proporcional, às vezes é histeria coletiva, quase sempre é as duas coisas juntas.

O Timothée Chalamet de Marty Supreme é, pelos julgamentos técnicos disponíveis, um ator excelente num papel excelente. O Timothée Chalamet da campanha de premiações de 2026 se tornou um personagem que a internet não consegue mais controlar – e isso, paradoxalmente, pode ser exatamente o que faz alguém se tornar eterno na cultura pop. A gente vai continuar assistindo. Sempre faz.
Foto: Shutterstock
Filmes
Obsessão: o “cara legal” que virou o vilão do próprio romance
Em cartaz nos cinemas brasileiros, o terror de Curry Barker usa magia e possessão para falar, de verdade, sobre consentimento e masculinidade tóxica no namoro moderno
Tem um momento em Obsessão em que Bear, o protagonista, percebe que o desejo que fez pela colega Nikki se tornou realidade, e em vez de desfazê-lo imediatamente, ele fica. Aproveita. Curte o fato de que ela agora está completamente focada nele, mesmo que algo claramente esteja errado. É um momento quase passageiro, mas é ali que o filme de estreia do diretor Curry Barker revela suas cartas: a história não é sobre uma maldição sobrenatural. É sobre um cara que achava que merecia o amor de alguém sem que ela tivesse escolhido isso.
Em cartaz no Brasil desde 21 de maio, Obsessão chegou precedido de uma das estreias mais comentadas do circuito de festivais recentes – o filme saiu do Toronto com 96% no Rotten Tomatoes e desencadeou uma disputa entre estúdios. Curry Barker, que construiu reputação com curtas virais no YouTube como Milk & Serial, estreia no circuito comercial sem perder nada da estranheza que o tornou conhecido online. Na história, Michael Johnston vive Bear, um funcionário apaixonado pela colega Nikki (Inde Navarrette), que usa um objeto místico chamado “Salgueiro dos Desejos” para que ela o ame acima de tudo. O que começa como comédia romântica levemente desajeitada vai escorregando para o horror à medida que Nikki perde o controle do próprio corpo, presa numa obsessão que não é dela.

O “cara legal” como figura de horror
O maior mérito do roteiro, também assinado por Barker, é recusar o caminho mais fácil. Bear não é o herói que fez uma escolha errada por ingenuidade e agora vai correndo consertar tudo. Ele é um cara que, no fundo, não queria só que Nikki gostasse dele. Ele queria que ela não tivesse outra opção. E quando as consequências aparecem de forma violenta e aterrorizante, ele ainda demora para agir porque parte dele está gostando do arranjo.
Johnston tem o trabalho ingrato de tornar esse personagem assistível sem torná-lo simpático, e consegue com uma interpretação que navega entre o patético e o perturbador. Já Navarrette carrega o filme nas costas com uma entrega que alterna desamparo e fúria sobrenatural de um jeito que evoca o melhor do horror psicológico europeu – referências a Possession, de 1981, com Isabelle Adjani, aparecem em mais de uma crítica internacional, e não é exagero.

O que torna Obsessão relevante para além do entretenimento é que ele traduz em linguagem de terror um arquétipo que qualquer mulher reconhece imediatamente: o homem que se autoproclamou “cara legal”, que nunca foi agressivo de forma óbvia, mas que também nunca aceitou que o interesse dela simplesmente não existia. Bear não bate em Nikki. Ele só não a deixa ser livre. E o filme tem a inteligência de mostrar que essa distinção, na prática, não muda muita coisa para quem está preso. A violência visível na tela parte de Nikki possuída. O dano real parte de Bear, que escolheu o desejo acima do consentimento, e continuou escolhendo mesmo depois de saber o que havia feito.

Obsessão tem falhas reais: o terceiro ato estica mais do que deveria, e a ambiguidade moral de Bear às vezes parece subdesenvolvida quando o roteiro opta pelo susto em vez da complexidade. Mas nenhuma dessas ressalvas apaga o que o filme consegue fazer com consistência: incomodar de verdade, e pelo motivo certo. Num ano em que o cinema de terror tem apostado cada vez mais em premissas comportamentais – relacionamentos disfuncionais, dinâmicas de poder, o horror do cotidiano -, Obsessão entra nessa conversa sem medo de deixar o espectador desconfortável consigo mesmo. Se você, assim como eu, passou anos assistindo filmes onde o Bear terminava com a garota e todo mundo aplaudia, esse aqui vai acertar em cheio.
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O Diabo Veste Prada 2 é melhor do que você esperava – e por um motivo surpreendente
Andy e Miranda voltam 20 anos depois para discutir o que o cinema raramente toca: o colapso do jornalismo e o que resta das pessoas que construíram impérios nele.
O Diabo Veste Prada 2 chegou aos cinemas brasileiros em 30 de abril carregando o peso de uma das maiores perguntas de 2026: dá pra continuar uma história que todo mundo já sabe de cor sem trair o original? A resposta, com 20 anos de distância e um mundo diferente como pano de fundo, é sim – e de um jeito que poucos esperavam.
ALERTA DE SPOILERS ABAIXO
Dirigido novamente por David Frankel, com roteiro de Aline Brosh McKenna, o filme reúne Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci numa trama que usa a crise do jornalismo impresso como gatilho para explorar algo mais interessante: o que acontece com as pessoas que constroem um império quando o chão some debaixo dos pés.

Andy Sachs agora é uma jornalista premiada no New York Vanguard, exatamente o tipo de carreira séria que ela sempre quis quando torcia o nariz pra Runway lá em 2006. Aí vem a demissão, por mensagem de texto, durante uma noite de premiação. O filme praticamente abre com essa cena, e é nesse momento que O Diabo Veste Prada 2 deixa de ser uma homenagem ao passado e vira algo com coisas reais pra dizer.
Andy volta à Runway não por redenção ou nostalgia, mas porque precisa do emprego. Miranda também não está em posição cômoda: a revista migrou para o digital, os investidores querem métricas antes de opinião, e o personagem de B.J. Novak representa tudo o que está destruindo o jornalismo com planilha e sorriso. A dinâmica entre as duas funciona porque nenhuma delas virou outra pessoa. Andy ainda acha que o jornalismo dela é mais importante que o da moda. Miranda ainda é intragável em reuniões de RH. É essa teimosia de personalidade que sustenta o filme.

A grande virada do roteiro envolve Emily Charlton – agora executiva de uma marca de luxo e responsável pelas decisões publicitárias que mantêm ou afundam a Runway. Emily Blunt entrega cada cena com precisão cômica, e a revelação de que ela é a força por trás da crise de Miranda funciona bem como engrenagem dramática. O que o filme acerta aqui é recusar o maniqueísmo: Emily não é uma vilã de cartoon, é uma mulher que chegou onde queria e ainda carrega as mesmas inseguranças de sempre, só com um orçamento maior. A sequência que ela e Andy compartilham quando a verdade vem à tona é o melhor pedaço de atuação do filme.
Uma das imagens mais inteligentes de O Diabo Veste Prada 2 é pequena: o mesmo cinto cerúleo que Miranda usou para dar uma aula sobre como a moda molda o que o mundo veste reaparece numa barraca de mercado popular. É o tipo de detalhe que funciona como crônica sem precisar de discurso. O mesmo vale para o ritual do casaco – que Miranda agora precisa pendurar sozinha, num escritório onde ninguém paralisa mais quando ela entra. Esses gestos valem mais que qualquer monólogo sobre a crise da mídia impressa.

A produção estreou com mais de US$ 233 milhões em bilheteria global no primeiro fim de semana, tornando-se um dos maiores lançamentos do ano – o que diz tanto sobre o poder da nostalgia quanto sobre a execução do filme para justificar esse retorno às salas.
O filme inteiro opera com contenção suficiente para não se tornar um desfile de referências ao original. O Diabo Veste Prada 2 não precisava existir. Mas existindo, chegou com algo real pra dizer – e isso, em 2026, já é mais do que a maioria.
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Emily Blunt revela que tinha medo de Meryl Streep no set de ‘O Diabo Veste Prada’
Em entrevista de divulgação da sequência, as atrizes confirmaram que Meryl Streep mantinha distância deliberada dos colegas para preservar a autoridade da personagem
Quase duas décadas depois das filmagens do primeiro O Diabo Veste Prada, Emily Blunt confirmou o que muita gente já desconfiava: Meryl Streep era uma presença intimidadora no set. Em entrevista ao programa SiriusXM Front Row com Andy Cohen, ao lado de Anne Hathaway e Stanley Tucci, Emily contou que a colega estava tão imersa no universo de Miranda Priestly que a convivência nos bastidores tinha uma tensão muito particular.
“No primeiro filme, eu estava com bastante medo porque sentia que você estava em uma zona”, disse Emily diretamente para Meryl, que confirmou sem cerimônia: “Ah, sim. Eu estava nessa zona.” Emily foi mais longe e batizou o estado de espírito da colega de “zona Miranda” – uma distância calculada que não era exatamente frieza, mas também não era a Meryl de sempre. “Não era impenetrável. A gente conseguia chegar e contar uma história engraçada, mas você não fazia aquela risada extraordinária que eu normalmente ouvia”, lembrou.
Em entrevista separada, Meryl explicou que o distanciamento não era método puro, era estratégia deliberada para sustentar a autoridade de Miranda Priestly em cena. A atriz mencionou que conversou sobre isso com Greta Gerwig, que descreveu uma lógica parecida na direção: “Elas meio que não querem você na festa da equipe. Você precisa de uma pequena barreira para parecer a chefe.”
O Diabo Veste Prada 2 estreia nos cinemas em 30 de abril com elenco original completo – Meryl, Anne, Emily e Stanley Tucci – e adições como Justin Theroux, Kenneth Branagh e Lady Gaga. O primeiro trailer do filme acumulou 222 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas, recorde da 20th Century Studios.
Emily Blunt, que era praticamente desconhecida do grande público quando o original foi lançado, disse à ELLE que o papel abriu portas para personagens com mais camadas, e a tirou do caminho das mocinhas de época britânicas. Duas décadas depois, ela voltou ao set. E, segundo as entrevistas de divulgação, a zona Miranda voltou junto.
Assista ao trailer:
