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Sabrina Carpenter, Addison Rae e Tate McRae: por que o pop sexy de 2025 não deveria escandalizar ninguém
De capas provocantes a figurinos estilo pin-up, a nova geração simplesmente reivindica o direito de brincar com o próprio corpo — e o julgamento apressado diz mais sobre o público do que sobre elas.
Sabrina Carpenter aparece ajoelhada numa capa de álbum, o cabelo puxado por uma mão masculina emoldurada fora de foco. Addison Rae dança num body cravejado que lembra os desfiles da antiga Victoria’s Secret. Tate McRae abandona o moletom colegial por um corset de oncinha, coreografando passos à la burlesco 2004. O barulho nas redes é imediato: “vulgar demais”, “forçado”, “marketing para velhos babões”. A reação soa antiga, quase vitoriana, para uma cultura que vive pregando liberdade individual. Enquanto o mundo transborda filtros, cada gesto sensual ainda vira motivo de patrulha — principalmente quando parte de mulheres jovens e bem-sucedidas.
Os números, porém, deixam claro que a maioria não está escandalizada; está curiosa. A hashtag #OvertlySexualPop já passa de 240 mil vídeos no TikTok, e Manchild, novo single da Sabrina Carpenter, estreou no Top 5 global da Spotify apesar (ou por causa) da controvérsia.
Uma pesquisa da GWI mostra que 71 % das mulheres entre 18-29 anos consideram a exibição da própria sexualidade um ato de empoderamento, não de submissão. Em vez de serem “objetificadas”, muitas artistas sentem que objetificam a plateia — provocando, rindo, lucrando. Sabrina faz piadas sobre “capa aprovada por Deus”; Addison responde a críticas com selfies irônicas; Tate, no Brit Awards, debocha do “escândalo” cantando versos sobre dirigir um carro esportivo em alta velocidade.
Há quem argumente que este revival sexy seria “retrógrado”. Mas isso ignora duas mudanças importantes. Primeiro: diferentemente dos anos 2000, as artistas não precisam de tabloides para validar a transição da inocência à libertinagem. Nascidas e criadas na internet, já chegam ao mainstream com controle total das redes, do styling e do discurso. Sabrina assinou o conceito visual do próprio álbum; Addison coreografa clipes com amigas de infância; Tate financia produção e figurino pela gravadora — tudo sem pedir benção a nenhum executivo grisalho. Segundo: o sentimento dominante não é agradar ao olhar masculino, mas dialogar com um público feminino que se diverte vendo amigas rindo de posições sexuais no palco e compartilhando links de roupas ousadas no WhatsApp.
Então por que tamanha indignação? A resposta passa pela velocidade das redes sociais. O feed oferece frames isolados — um vestido minúsculo, uma pose exagerada — sem contexto. O algoritmo privilegia a reação mais raivosa, e o comentário moralista sobe no topo. Resultado: a cada capa provocante, surgem análises apocalípticas sobre o fim da moral, ignorando que, entre 1999 e 2013, Britney, Beyoncé, Xtina e Rihanna já haviam feito algo parecido — sem que o mundo ruísse. Em vez de escândalo, deveríamos reconhecer o déjà-vu histórico: o corpo feminino vira palco de ansiedade coletiva sempre que a sociedade vive momentos de transformação (hoje, IA, crise climática, caos político). Não é coincidência que, justamente quando discussões de gênero e sexualidade se tornam amplas e fluidas, surja quem queira “voltar ao normal” policiando saia curta.
A ironia? Musicalmente, essas cantoras nem são tão explícitas. Addison prefere falar de fama, compras e saudade da infância; Sabrina tempera provocações com humor; Tate canta desilusões amorosas num sotaque radiofônico. As coreografias também são mais solitárias que orgiásticas: nada lembra a sauna coletiva de Dirrty, de Aguilera. O erotismo está nas entrelinhas — no controle da narrativa, não no contato físico. É basicamente uma metáfora em movimento: desejo próprio, sem necessidade de aprovação externa.
No fundo, julgar essas escolhas revela um duplo padrão antiquado. Homens buscam seus arquétipos sexy desde sempre, do rock ao trap, e raramente enfrentam microanálises de “incoerência”. Quando mulheres fazem o mesmo, viram alvos de escrutínio moral ou acusações de “marketing apelativo”. A liberdade sexual só é liberdade se servir a todos — inclusive à artista que prefere cantar de cinta-liga e salto agulha.
Em um tempo em que o algoritmo estimula raiva e puritanismo camuflado de progressismo, celebrar esses momentos de diversão corporal talvez seja um antídoto. Afinal, se a cultura digital já exige tanto autocontrole — imagem perfeita, feed calculado, perfil “family friendly” —, deixar que mulheres adultas escolham corsets e letras picantes é, no mínimo, coerente com a liberdade que todos dizem defender. Sabrina, Addison e Tate não estão tentando chocar; estão lembrando que, sem direito ao exagero, a autonomia feminina segue incompleta. E isso, convenhamos, não deveria assustar ninguém.