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“Euphoria”: o que está por trás da cena que mostra o destino de Rue

No episódio final da terceira temporada, Sam Levinson constrói uma das cenas de morte mais carregadas de simbolismo bíblico da TV recente, e encerra sete anos de Rue Bennett do único jeito possível

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⚠️ Este texto contém spoilers do final de Euphoria.

Euphoria sempre foi uma série sobre pessoas que chegam perto demais da beira, mas nunca caem – até que caem. A terceira temporada, que exibiu o seu episódio final no último domingo (31), encerrou não só a história de Rue Bennett mas a própria série, e fez isso com uma sequência de morte que vai incomodar por um bom tempo. Não porque seja violenta, mas porque é meticulosamente construída ao longo de oito episódios e chega ao final com uma coerência que poucos finais de série conseguem.


A temporada inteira foi uma longa tese teológica disfarçada de drama sobre vício. Já no episódio seis, Rue vê uma árvore em chamas no deserto, referência direta à sarça ardente através da qual Deus fala com Moisés no Antigo Testamento. Ao longo daquele episódio, ela está em busca de sentido: na ideia de formar uma família, no amor por Jules ou na possibilidade de encontrar Deus – tudo isso enquanto se aprofunda cada vez mais num esquema criminoso envolvendo traficantes e, paralelamente, trabalha como informante da DEA.

O que o criador Sam Levinson fez com esse simbolismo ao longo da temporada foi construir uma espécie de via sacra particular para Rue: desertos, igrejas, rotas de tráfico, espaços que funcionam menos como cenário realista e mais como mapa moral. A sensação que a temporada provoca é de que Rue não é mais só uma adolescente em colapso, mas uma figura quase religiosa em peregrinação, passando por punição, confissão e a pergunta que a série nunca responde com clareza: se a redenção era possível pra ela ou não.


A sequência final do episódio começa com Rue voltando para casa pela janela do quarto, não pela porta da frente. Em textos bíblicos, a janela carrega um significado específico: é por uma janela que Raabe pendura um cordão escarlate como sinal de salvação no livro de Josué. Entrar pela janela, e não pela porta, é o gesto de quem não acredita ter direito de chegar pela entrada principal, ou seja, Rue nunca achou que merecia ser salva.

O último som que ela ouve antes de morrer é o audiolivro do Gênesis – o livro dos começos, da criação do mundo a partir do nada. Ao escolher o Gênesis como a última coisa que Rue ouve, Levinson enquadra a morte não como fim, mas como renascimento – uma alma retornando ao que existia antes da queda, antes do câncer do pai, antes do primeiro comprimido. E tem um detalhe que machuca mais do que qualquer outro: Rue havia reiniciado esse audiolivro várias vezes durante a temporada. Ela nunca passava do começo.


Zendaya havia dito em entrevista que achava que a terceira temporada seria a última, e que “um fechamento estava chegando”. A chefe de drama da HBO, Francesca Orsi, confirmou que o encerramento da série havia sido discutido internamente, mesmo sem fechar a porta completamente para o futuro. Fechada ou não, a série chegou ao fim que sempre pareceu inevitável para Rue, e o fez com seriedade o suficiente para justificar sete anos de espera.

A última fala da personagem é “que Deus nos abençoe a todos”. Ali (Colman Domingo) imagina Rue à mesa, os dois trocam um sorriso. O objeto mais carregado de sentido nos minutos finais é a Bíblia que Rue deixou na casa de Lexi, mostrando a busca de uma alma jovem por algum ponto de ancoragem que ela nunca conseguiu encontrar de verdade.

Euphoria terminou como começou: sem dar ao público a catarse que ele queria. Rue não se salvou, mas, pelo menos no sonho que antecede a morte, ela entrou pela janela e encontrou a mãe sentada à mesa, lendo. Às vezes é com isso que a gente tem que se contentar.

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