Séries
“Olympo”, nova série da Netflix, é a sucessora de “Elite”?
Sim, a Netflix lançou mais uma série espanhola com gente bonita, uniformes justos, tretas mil e segredos sombrios. Mas se você achou que era só mais um clone de Elite, errou por pouco — Olympo até tenta ser a nova queridinha do público teen, mas troca o colégio de luxo por um centro de treinamento esportivo cheio de doping, paranoia e gente surtando com rotina de atleta.
- The Vampire Diaries: roteirista comenta rumores sobre revival
- Amanda Bynes: o que fizeram com a estrela prodígio dos anos 2000?
- Anne Hathaway já foi cancelada por ser simpática demais?
A trama acompanha a obsessiva Maia, capitã do time de nado artístico, que basicamente topa qualquer coisa pra ganhar uma vaga nas Olimpíadas (inclusive quase afogar coleguinhas). O elenco tem várias figurinhas carimbadas de Elite, incluindo Nuno Gallego e outros rostinhos conhecidos de séries espanholas.

Só que aqui o mistério não gira em torno de assassinato (por enquanto), mas sim de uma droga secreta que transforma atletas em super-humanos — com um leve detalhe: ela pode destruir suas vidas no processo. A série flerta com Black Mirror do esporte, mas entrega mais gritaria de vestiário e tensão hormonal do que sci-fi de verdade.
E esse roteiro perdido?
Apesar do drama interessante com doping, pressão familiar e até discussões sobre homofobia no esporte, Olympo ainda escorrega feio em alguns pontos. O roteiro patina no começo tentando decidir quem é o verdadeiro protagonista (spoiler: até a Netflix pareceu confusa) e a tal instituição “Olympo” surge sem nenhuma construção sólida.

A rivalidade entre Maia e Zoe (a novata traumatizada e um pouco perdida na trama) rende bons momentos, mas a conexão entre os personagens demora pra acontecer. Quando eles finalmente se juntam pra tentar derrubar o Olimpo por dentro, até dá pra sentir aquela vibe de “família que a vida juntou” – se isso tivesse rolado uns quatro episódios antes, né?
Ainda assim, a reta final entrega. A apresentação de nado sincronizado é linda (arrepios reais), a trama do Rock como estrela do rugby e símbolo LGBTQIA+ tem força, e o gancho pro próximo ano é digno de maratona. Olympo não revoluciona, mas tem potencial. Se a Netflix quiser continuar jogando, é bom arrumar o campo e dar mais episódios — porque com oito, a sensação é que a série aqueceu, correu, caiu na piscina e ficou boiando.
Assista ao trailer:
Séries
“A Leste do Éden”: Joseph Zada estava “morrendo de medo” antes das filmagens com Florence Pugh
Antes de virar o jovem Haymitch em Jogos Vorazes, Joseph Zada passou três semanas ensaiando com Joe Anders a cena mais difícil de A Leste do Éden, a primeira que gravaram e justamente ao lado de Pugh
Para Joseph Zada e Joe Anders, a química de irmãos em A Leste do Éden nasceu de um medo bem compartilhado. Os dois atores, que vivem os gêmeos Cal e Aron Trask na minissérie da Netflix, contaram à Elite Daily que passaram três semanas ensaiando juntos, completamente apavorados, antes de gravar a primeira cena da produção. O detalhe que piora tudo: era uma cena com Florence Pugh, que interpreta a mãe deles, Cathy Ames, e também a sequência mais importante de ambos na série. Anders resumiu a experiência dizendo que os dois estavam no mesmo barco, morrendo de medo de estragar tudo, e que foi atravessando essa tempestade juntos que a relação de gêmeos surgiu.
O nervosismo tem explicação. Zada, australiano de 21 anos, e Anders nunca tinham trabalhado em algo dessa escala, e de repente estavam dividindo o set com uma atriz indicada ao Oscar por Adoráveis Mulheres, que ainda assina a série como produtora executiva. A própria criadora, Zoe Kazan, contou que Pugh foi a única atriz citada na apresentação do projeto, depois de ficar impressionada com o trabalho dela em Midsommar. Começar a carreira em série de prestígio contracenando com a pessoa que a showrunner considerava insubstituível é o tipo de primeiro dia que ninguém deseja.

A pressão também vinha do papel. Cal Trask é o personagem que transformou James Dean em astro em Vidas Amargas, o filme de 1955 dirigido por Elia Kazan, avô de Zoe. Setenta anos depois, a neta revisita o romance de John Steinbeck em sete episódios e com Cathy no centro da história, deixando para Zada um personagem com uma das sombras mais pesadas do cinema americano. Anders, por sua vez, carrega outro tipo de expectativa: ele é filho de Kate Winslet e do diretor Sam Mendes, e A Leste do Éden é a vitrine mais visível da carreira dele até agora.
Fora do set, as filmagens na Nova Zelândia, país que nenhum dos dois conhecia, ajudaram a consolidar a amizade. Eles moraram em apartamentos vizinhos, descobriram que torcem para o Arsenal, passaram horas falando de futebol e chegaram a viajar juntos nas folgas. Zada também revelou que leu o roteiro de um filme escrito por Anders e chorou do começo ao fim, rasgando elogios ao colega como roteirista. A essa altura, a parceria já tinha deixado de ser exercício de atuação.
Para Zada, A Leste do Éden foi só a primeira parada de um ano decisivo. Depois de ficar conhecido do público jovem por Mentirosos, do Prime Video, ele foi escalado para viver o jovem Haymitch Abernathy em Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita, adaptação do livro de Suzanne Collins que mostra o mentor de Katniss na época em que ele próprio foi enviado à arena. As gravações com Florence Pugh aconteceram no início de 2025, antes de ele chegar ao Distrito 12.
A Leste do Éden está disponível na Netflix desde 1º de outubro, com os sete episódios liberados de uma vez. Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita chega aos cinemas em novembro.
Séries
Carrie – A Estranha: Mike Flanagan atualiza o clássico de Stephen King, mas esquece o medo
Nova série do Prime Video acerta ao levar o bullying para as redes sociais, mas raramente assusta e fica abaixo do que o diretor já entregou
Carrie, a Estranha chegou ao Prime Video na última quarta-feira (7) com os oito episódios de uma vez e tudo para ser o encontro perfeito entre material e diretor. O primeiro romance de Stephen King, publicado em 1974, tem fanatismo religioso, crueldade adolescente e uma mãe que ama a filha de um jeito que dá medo, ou seja, o cardápio completo de Mike Flanagan. A série tem boas ideias e uma protagonista que segura o peso, mas termina como o trabalho menos assustador do diretor na TV, o que é um problema sério quando o assunto é uma das histórias de terror mais famosas de todos os tempos.
O acerto mais evidente é a atualização. Flanagan avisou desde a San Diego Comic-Con que não iria refazer o filme de Brian De Palma, de 1976, e cumpriu a promessa. O bullying que persegue Carrie agora passa pelas redes sociais, a trama ganha a morte repentina do pai como ponto de partida e a escola parece de fato uma escola de 2026, efeito de uma decisão inteligente do diretor, que levou adolescentes para a sala de roteiristas. Summer H. Howell faz uma Carrie retraída sem cair na caricatura da garota estranha, e Samantha Sloyan, figura carimbada do chamado Flanniverso, transforma Margaret White numa presença que incomoda mais pela calma do que pelos gritos.

O que falta é a sensação de que algo terrível está se aproximando. Oito episódios dão a Flanagan um espaço que De Palma nunca teve, e ele sabe usar esse tempo melhor do que quase ninguém. Em A Maldição da Residência Hill, os irmãos Crain brigam de forma tão convincente que os fantasmas viram quase um bônus. Em Missa da Meia-Noite, cada milagre do padre vivido por Hamish Linklater deixa a ilha um pouco mais perto do abismo. Em Carrie, a duração serve mais para esticar o drama escolar do que para apertar o cerco, e a tensão que deveria crescer até o baile fica estacionada por boa parte da temporada.
A explicação pode estar numa referência que o próprio diretor admitiu ao ScreenRant: a Eleven de Stranger Things, personagem inspirada em Carrie White, esteve na cabeça dele durante toda a produção. Dá para sentir. A série muitas vezes se comporta como um drama teen da Netflix com poderes telecinéticos, tem conversa demais sobre poder e de menos sobre o pavor que ele provoca. Para quem conheceu a história por esse caminho, pode até funcionar como porta de entrada. Para quem sabe do que Flanagan é capaz, é frustrante vê-lo controlar tão bem o clima e entregar tão pouco susto.

Isso não apaga o currículo. A Queda da Casa de Usher continua sendo uma aula de como fazer cada morte dizer algo sobre quem morre, e mesmo as obras mais irregulares do diretor, como A Maldição da Mansão Bly e O Clube da Meia-Noite, faziam o público se apegar antes de perder alguém. Carrie é a estreia de Flanagan no acordo com a Amazon MGM Studios e ainda tem fôlego para provar seu valor. Nesta primeira temporada, ela ficou devendo justamente aquilo que o nome dele promete na capa.
Os oito episódios de Carrie, a Estranha já estão disponíveis no Prime Video.
Séries
Rivalidade Ardente: por que o fandom vive de fanfic
Ensaio sobre 14 milhões de palavras lidas em um ano escancara como os fãs de Shane e Ilya estão sobrevivendo à longa espera pela segunda temporada
No fim de setembro, a revista The Cut publicou um ensaio em que a jornalista Jen Ortiz faz uma contabilidade curiosa: cerca de 14 milhões de palavras de fanfics de Heated Rivalry lidas só em 2026, o que, considerando um romance médio de 70 mil palavras, daria algo como 200 livros. O texto rodou as redes e provocou uma reação engraçada. Em vez de espanto, muita gente do fandom respondeu com algo próximo de “só isso?”. Confesso que achei o número mais revelador sobre o momento da série do que sobre a autora. Ele é o retrato de uma comunidade que ficou sem episódio novo para assistir e decidiu escrever a própria temporada enquanto espera.
Para quem chegou agora, Heated Rivalry, que no Brasil ganhou o título de Rivalidade Ardente, é a adaptação da saga literária Game Changers, de Rachel Reid. Criada por Jacob Tierney, a série acompanha Shane Hollander e Ilya Rozanov, dois astros do hóquei cuja rivalidade no gelo esconde um relacionamento secreto que atravessa oito anos, vividos por Hudson Williams e Connor Storrie. A produção canadense estreou no fim de 2025 e virou fenômeno antes mesmo de chegar oficialmente por aqui. Quando finalmente desembarcou, o país estava pronto: o livro, lançado pelo selo Alt, da Globo Livros, bateu recorde de vendas nas primeiras 24 horas de pré-venda, e os seis episódios foram liberados semanalmente na HBO Max até 20 de março.

E aí começou a seca. Segundo Jacob Tierney, as gravações da segunda temporada começariam em agosto, com estreia prevista para abril de 2027 no canal canadense Crave. A nova leva vai adaptar The Long Game, sexto livro da série, mas até lá o fandom tem mais de um ano pela frente com apenas seis episódios de material audiovisual. É nesse vácuo que o Archive of Our Own, o famoso AO3, entra como suporte de vida. A professora Myriam Brouard, da Universidade de Ottawa, que pesquisa o fenômeno, contabilizou que o número de histórias sobre a série no site saltou de 360 para quase 8 mil, enquanto o tempo de streaming nos Estados Unidos passou de 30 milhões para 324 milhões de minutos em um único mês. Pela matemática, quem leu 14 milhões de palavras tinha estoque de sobra.
O que mais chama atenção nessa produção toda é a criatividade de formato. Uma reportagem da Bustle sobre o tema mostrou que a série tirou da aposentadoria escritores de fanfic que estavam parados havia anos, ao mesmo tempo em que apresentou o gênero a uma leva de leitores de primeira viagem. E a turma não está só escrevendo capítulos tradicionais. Há fics montadas como conversas de mensagem para rolar na tela, posts de Instagram interativos e até anexos que o leitor precisa abrir para seguir a história. Faz sentido para uma trama em que boa parte do romance acontece por celular, escondida do resto do mundo. Os fãs pegaram o recurso narrativo mais marcante da série e transformaram em linguagem própria.

Esse crescimento relâmpago também tem um lado menos fofo. Brouard descreve o que chama de efeito Ouroboros, ou fandom acelerado: quando uma comunidade incha rápido demais, não sobra tempo para ela construir suas regras e valores, e o grupo entra num ciclo que lembra a cobra que morde o próprio rabo. O sintoma mais visível apareceu longe do AO3. Hudson Williams e François Arnaud publicaram no Instagram um recado pedindo que pessoas que espalham comentários racistas, homofóbicos e parassociais parassem de se chamar de fãs, mensagem que Jacob Tierney e Rachel Reid também repostaram. A distinção importa. Ler fanfic até de madrugada é coisa entre o leitor e a própria lista de leitura. Despejar ataque na caixa de comentários de um ator é outra categoria de comportamento, e o próprio elenco fez questão de traçar essa linha.
Quando a segunda temporada finalmente estrear, uma parte enorme do público vai chegar já tendo lido centenas de versões alternativas de Shane e Ilya, com finais, brigas e reconciliações que a série nunca mostrou. The Long Game vai competir com todas elas.
