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“The Moment”, filme da Charli XCX, é baseado em uma história real?
Em vez de documentário de turnê, cantora entrega mockumentary pela A24 que expõe as engrenagens cruéis da indústria pop
Até 2024, o verde limão e o texto em letras minúsculas já tinham se tornado símbolos inescapáveis da dominação comercial e cultural de Charli XCX. O álbum brat transcendeu a música e virou estética, meme, até identidade visual de campanha presidencial quando Kamala Harris adotou a paleta de cores durante sua corrida à Casa Branca. Com tanto sucesso acumulado, seria natural esperar que a cantora britânica capitalizasse esse momento com um documentário de turnê convencional cheio de ônibus, ensaios e multidões cantando em estádios. Mas Charli não é artista de fazer o óbvio, e junto com o diretor Aidan Zamiri ela entregou The Moment, um mockumentary da A24 que trata o estrelato pop menos como uma festa e mais como um sistema que precisa ser constantemente alimentado e que pode facilmente devorar quem está no centro dele.
O filme, que estreou no Festival de Sundance em janeiro e chegou aos cinemas americanos no final do mês, acompanha uma versão ficcional de Charli enquanto ela se prepara para sua primeira turnê em arenas após o estouro de brat. Antes mesmo da primeira cena, The Moment já pisca para o público com um disclaimer quase imperceptível informando que certos nomes e empresas foram alterados por “razões de licenciamento”, deixando claro que a linha entre realidade e ficção será borrada do início ao fim. A própria Charli descreveu sua personagem como “uma versão infernal de mim mesma”, navegando um período em que foi inundada por oportunidades comerciais dignas da The Eras Tour e precisou pesar cada decisão contra a autenticidade de sua arte.

O elenco estelar inclui Alexander Skarsgård como Johannes, um diretor de documentário de concerto enviado pela gravadora que entra em conflito direto com a visão criativa da cantora, além de Rosanna Arquette como executiva de gravadora, Kate Berlant, Jamie Demetriou, Rachel Sennott e participações de Kylie Jenner e Julia Fox.
O coração do conflito em The Moment está justamente na tensão entre controle criativo e apelo comercial, personificada no embate entre Charli e Johannes. Enquanto a cantora e sua diretora criativa Celeste, interpretada por Hailey Benton Gates e inspirada na colaboradora real de Charli, Imogene Strauss, querem um show visceral e autêntico à estética brat, o diretor empurra para algo mais palatável e familiar às massas.
A cena final do filme, onde Charli cede completamente à visão de Johannes, é lida por muitos críticos como uma referência direta à The Eras Tour de Taylor Swift, o maior espetáculo de turnê da história, com seu filme de concerto arrasa-quarteirão e docusérie no Disney+. Mas como nas letras de Sympathy Is A Knife, a alusão tem menos a ver com Swift como pessoa e mais com o que ela representa como marca: um show que você pode levar sua filha de oito anos ou sua avó de oitenta: seguro, inofensivo, e rentável ao extremo.
O que torna The Moment particularmente fascinante é sua recusa em ser um produto nostálgico ou celebratório do fenômeno brat. Na realidade, não existiu nenhum cartão de crédito brat nem escândalo financeiro relacionado, nenhum diretor específico que inspirou Johannes, nenhum filme de concerto produzido pela Amazon Prime Video. O que é verdadeiramente real no filme são o álbum, sua criadora, e a pressão esmagadora que veio junto com o sucesso inesperado. O monólogo final de Charli em mensagem de voz corta fundo ao reconhecer que “em outro mundo, fizemos o show que queríamos”, enquanto ela simbolicamente solta as rédeas de brat. Os fãs entenderam o recado e já deixaram a era para trás, abraçando o novo capítulo enquanto Charli prepara a trilha sonora para a aguardada adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes dirigida por Emerald Fennell.
Assista ao trailer:
A recepção crítica foi mista, com 62% de aprovação no Rotten Tomatoes e resenhas divididas entre quem viu profundidade na sátira e quem sentiu falta de dentes mais afiados, mas a bilheteria em quatro salas alcançou quase 430 mil dólares, a terceira maior estreia limitada pós-Covid para a A24. A verdade neste filme está nos olhos de quem assiste, e por enquanto estamos aceitando a palavra de Charli.
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Os piores filmes de 2026 (até agora)
2026 tá sendo um ano e tanto no cinema – mas não sempre pelo motivo certo. Aqui estão os filmes que a gente esperava mais (e levou menos)
Seis meses de cinema e já dá para montar uma lista de filmes que não deveriam ter chegado assim. Não é questão de bilheteria – alguns até foram bem nas salas. O problema é outro: são projetos que chegaram com expectativa real, com gente talentosa envolvida, e que entregaram menos do que qualquer versão alternativa deles mesmos poderia ter entregado. Eis os oito que mais doeram.

Pânico 7 é, talvez, o caso mais trágico da lista porque a produção caiu antes mesmo de as filmagens começarem. Melissa Barrera foi demitida em 2023 depois de se posicionar publicamente sobre Gaza, Jenna Ortega foi junto, os diretores saíram, o roteiro foi refeito às pressas. O que chegou aos cinemas em fevereiro é a soma desses buracos: uma história que precisava da Sam Carpenter como protagonista mas que a ignora completamente, substituída por uma filha adolescente de Sidney Prescott que simplesmente não existia em nenhum filme anterior – uma retcon que a franquia faz questão de não explicar. Neve Campbell voltou, e isso é genuinamente bom de ver. Mas o Pânico 7 que existe não é o Pânico 7 que estava sendo construído. É um produto de gerenciamento de crise disfarçado de homenagem.

Supergirl tinha tudo para ser o segundo acerto do novo DCU de James Gunn depois de Superman no ano passado. A Milly Alcock é ótima – todo mundo concorda nisso, né!? O problema é que o filme ao redor dela parece feito por alguém que queria ser James Gunn mas não é James Gunn. Craig Gillespie fez Eu, Tonya e Cruella, dois filmes com personalidade visual própria, e entregou aqui uma estética monocromática, cinza, sem nenhuma das cores cósmicas que tornavam os quadrinhos de Tom King e Bilquis Evely tão irresistíveis. A história de Kara Zor-El, que nos quadrinhos é sobre amadurecer enquanto o universo te destroça, vira aqui uma aventura espacial genérica onde Jason Momoa como Lobo rouba todas as cenas. O que seria ótimo se o filme fosse sobre o Lobo. Não é.

Terror em Silent Hill: Regresso Para O Inferno é o tipo de filme que faz você sentir falta não só do jogo mas do próprio silêncio. Silent Hill 2 é considerado um dos maiores estudos de culpa e luto já feitos no videogame. Uma obra onde cada monstro é uma projeção do estado mental do protagonista, onde cada corredor é uma verdadeira tortura psicológica. O que Christophe Gans entregou foi um filme de atmosfera sem substância: Silent Hill visualmente reconhecível, com Pyramid Head aparecendo nas horas certas, mas vazio por dentro. Os personagens não têm as camadas que tornavam o jogo um soco no estômago. É como visitar uma cidade que você amava e encontrar só a fachada.

Todo Mundo em Pânico voltou com os Wayans depois de duas décadas e a ideia não era ruim, afinal, o gênero de horror está em plena forma, com mais material para parodiar do que em qualquer momento desde os anos 2000. O primeiro Todo Mundo em Pânico funcionou porque o alvo (Pânico, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado) era fácil de reconhecer e recheado de clichês exploráveis. O problema de fazer uma paródia de Pânico em 2026 é que Pânico já é uma autoparódia, e parodiar uma paródia produz principalmente piadas que chegam já digeridas. Anna Faris e Regina Hall sustentam o que podem, mas o roteiro entrega piadas que o público já antecipa.

Super Mario Galaxy é muito barulho para pouco jogo. O primeiro filme, de 2023, tinha um charme que funcionava porque a simplicidade era intencional. O Galaxy vai na direção contrária: mais personagens, mais planetas, mais Easter eggs, mais tudo. Rosalina, que deveria ser o coração emocional da história, mal existe como personagem. O Yoshi aparece e some. As cenas se acumulam sem que nenhuma construa algo sobre a anterior. Muito mais parque temático do que cinema.

A Noiva!, de Maggie Gyllenhaal, é o tipo de projeto que você respeita pela ambição e torce enquanto assiste para que a ambição vença. Ela não vence. A ideia era ótima: pegar a Noiva de Frankenstein de 1935, jogar no Chicago gangster dos anos 1930, dar voz ao monstro feminino, colocar Jessie Buckley e Christian Bale no centro e deixar tudo desandar magnificamente. Buckley é extraordinária. Bale é Bale. Mas o roteiro não decide o que quer ser – musical, thriller de gangster, manifesto feminista, fábula de horror – e a soma de todas essas intenções produz um filme que começa três vezes e não termina direito nenhuma delas. Gyllenhaal claramente ama essa história mais do que sabe contá-la.

O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell é o caso mais frustrante. Depois de Bela Vingança e Saltburn, Fennell tem crédito suficiente para fazer o que quiser, e o que ela quis foi transformar Emily Brontë num melodrama erótico suntuoso com figurinos que parecem couture de museu e Margot Robbie e Jacob Elordi fazendo caretas de intensidade emocional. O livro é sobre obsessão, classe, crueldade e desejo que devora quem o sente. O filme reduz isso a silêncio artístico com close-ups bonitos. A trilha da Charli XCX é genuinamente boa. O filme, no geral, parece uma apresentação de moodboard para um projeto mais interessante que nunca chegou a ser feito.

Dia D, o sci-fi de OVNIs de Spielberg, não é exatamente ruim – Spielberg nunca é exatamente ruim. Mas depois de anos de espera pelo retorno dele ao gênero que o tornou Spielberg, o que chegou é um filme que tem mais ideias do que coragem de desenvolvê-las. Há uma cena aqui e outra ali que lembram por que Contatos Imediatos do Terceiro Grau ainda funciona hoje. O resto parece um diretor cauteloso demais com a própria herança. Para quem esperava que o cara que inventou o maravilhamento cinematográfico com OVNIs voltasse para essa conversa com tudo, Dia D chega como um aceno educado onde deveria ter sido um abraço.
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Por que Toy Story 5 dói mais nos adultos do que nas crianças?
rinta e um anos separam o primeiro Toy Story do quinto, e a Pixar usou esse intervalo todo para calibrar exatamente o que dói mais em 2026. Não é pouca coisa. A franquia que nasceu falando sobre o medo de ser esquecido chegou ao seu capítulo mais atual enfrentando a versão contemporânea do mesmo problema: crianças que trocaram os brinquedos pelas telas e adultos que já nem se lembram quando fizeram o mesmo.
A grande aposta do roteiro, assinado por Andrew Stanton — o mesmo de Nemo e Wall-E — é colocar Jessie no centro pela primeira vez desde Toy Story 2. Woody e Buzz continuam presentes, mas é a cowgirl, carregando ainda o trauma de ter sido abandonada por Emily na adolescência, quem conduz a história quando Bonnie, agora com oito anos, ganha de presente um tablet infantil chamado Lilypad (com voz de Greta Lee). O que começa como uma solução dos pais para ajudar a filha a fazer amigos rapidamente vira o pesadelo familiar que qualquer adulto com memória reconhece: a criança sai do mundo real, entra numa tela e praticamente desaparece. O filme não é sutil sobre isso, e nem precisa ser.

O que torna Toy Story 5 diferente de um episódio de Black Mirror com animação fofa é o cuidado com que trata a tecnologia. Lilypad não é vilã — e o filme tem esperteza suficiente para não ir pelo caminho fácil da tela como inimiga. A Pixar entende que não existe mais audiência que não viva dentro de uma tela, então a escolha foi outra: mostrar que o problema nunca foi o dispositivo, mas o que ele substitui quando ocupa espaço demais. Jessie não precisa destruir o tablet para ganhar. Precisa encontrar uma forma de existir ao lado dele.
O que fica de Toy Story 5 para quem cresceu com a franquia não tem muito a ver com crianças. Tem a ver com o quanto a gente, adultos cronicamente online, também parou de brincar. A cena em que Jessie descobre que deixou uma marca permanente em Emily — que aquela infância virou o nome da filha dela anos depois — é o tipo de coisa que a Pixar coloca de contrabando em meio às piadas. A crítica da New York Times apontou que dá para ouvir o tempo passando nas vozes de Tom Hanks e Joan Cusack, e é verdade: há algo genuinamente emocionante em escutar esses personagens soarem diferentes, mais velhos, depois de 31 anos. O subtexto do filme é que tudo deixa marca, que nenhum brinquedo ficou num quarto à toa, e que a nostalgia é menos sobre o passado e mais sobre o que a gente carrega disso pra frente.

Toy Story 5 traz uma história que consegue falar de telas sem soar como uma carta no final de algum documentário sobre redes sociais pedindo pra você ir lá fora e largar o celular. A Pixar entregou o que prometia: uma razão real para largar as telas por 102 minutos, o que é ironicamente a coisa mais difícil de pedir em 2026, né!?
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10 curiosidades sobre a franquia ‘Todo Mundo em Pânico’
A franquia mais nonsense dos anos 2000 esconde bastidores que são quase tão absurdos quanto os próprios filmes
Todo Mundo em Pânico é o exemplo perfeito de filmes que a gente assiste, não acha graça em todas as piadas, mas ri de chorar mesmo assim. A franquia que nasceu como uma paródia de Pânico e acabou sobrevivendo por cinco filmes e mais de duas décadas tem bastidores bem mais caóticos do que o produto final, o que, considerando o filme que vemos nas telonas, já é dizer bastante. Dez fatos que valem sua atenção:
O nome foi literalmente descartado de outro filme
O título Scary Movie era o nome provisório de Pânico (1996) durante o desenvolvimento, e foi abandonado quando a produção decidiu que o projeto merecia algo mais sério. Quatro anos depois, os Wayans reaproveitaram o nome descartado exatamente para a paródia do filme que o rejeitou.
O roteiro saiu de dois scripts que ninguém queria muito
A Dimension Films adquiriu dois roteiros de comédia de terror que não tinham ido pra frente: Last Summer I Screamed Because Halloween Fell On Friday The 13th e Scream If You Know What I Did Last Halloween. Os dois foram fundidos num único script, e os autores do segundo, Jason Friedberg e Aaron Seltzer, seguiram na franquia e depois assinariam Uma Comédia Nada Romântica e Deu a Louca em Hollywood. Uma escola de pensamento muito específica.

Britney Spears disse não para Drew Decker
O papel de Drew Decker – aquela cena de abertura que todo mundo lembra do primeiro filme – foi oferecido tanto para Jenny McCarthy quanto para Britney Spears. As duas recusaram. McCarthy voltou atrás mais tarde e apareceu no terceiro filme; Britney seguiu o caminho dela, que já estava bem ocupado com …Baby One More Time e uma carreira inteira pra gerir.
Jared Leto também recusou
O papel de Bobby, que acabou com Jon Abrahams, foi oferecido a Jared Leto. Ele declinou para estrelar Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky – curiosamente, um filme onde Marlon Wayans também aparece, em papel dramático.
Jamie Lee Curtis quase apareceu no armário
A scream queen original tinha uma participação especial planejada: Cindy (Anna Faris) a encontraria escondida num armário enquanto o assassino subia as escadas. A cena não foi filmada, Jamie Lee Curtis não chegou a aparecer no filme, e o armário ficou para a história como o que poderia ter sido.

Marlon Brando filmou um dia e sumiu
Para o segundo filme, Marlon Brando havia sido escalado como Padre McFeely. Ele chegou a gravar um dia de filmagens antes de sair da produção por problemas de saúde. Charlton Heston foi contatado para o lugar, recusou. Cogitou-se até Bill Clinton, que tinha acabado de deixar a Casa Branca. No fim, James Woods ficou com o papel e recebeu US$ 1 milhão por quatro dias de trabalho. Mais eficiente que todos.
O primeiro filme disse explicitamente que não haveria sequência
Dentro da narrativa do primeiro Todo Mundo em Pânico, ficou claro que a história estava encerrada. Quatro sequências e vinte e poucos anos depois, a declaração envelheceu da mesma forma que qualquer promessa feita no início dos anos 2000.

Os Wayans sumiram depois do terceiro
A família Wayans dominou os dois primeiros filmes como produtores, roteiristas e atores. A partir do terceiro, nenhum membro do clã foi chamado para voltar ao projeto. A franquia continuou sem eles – prova de que Hollywood raramente desiste de uma marca que funciona, mesmo quando todo mundo envolvido na criação já foi embora.
US$ 19 milhões de orçamento, quase US$ 280 milhões de retorno
O primeiro filme foi massacrado pela crítica e virou um dos maiores sucessos de bilheteria do gênero nos anos 2000. Essa relação custo-retorno constrangedora é o motivo pelo qual franquias assim continuam existindo – a lógica financeira não tem muito a ver com qualidade, e esse caso prova o ponto com elegância.

Anna Faris saiu. Ashley Tisdale entrou. Ninguém pediu
Todo Mundo em Pânico 5 (2013) foi um reboot que trocou Anna Faris por Ashley Tisdale e removeu praticamente todo o DNA original da franquia. Foi o menor sucesso da série em bilheteria.
